sábado, 17 de maio de 2014

O que é o Homem sem seu Trabalho?

Admirado por Tolstoi, James Joice, George Bernard Shaw, e outros nomes importantes, Tchekhov foi médico e famoso escritor russo. Sua literatura se destacou ao representar técnicas modernas para sua época, como a desconsideração por um final ou fecho para a história, e a elaboração psicológica das personagens e a representação de seu fluxo mental.

Foi por isso que “furei a fila” de meu planejamentos de leituras, iniciando o quanto antes “As três irmãs”. Para quem está habituado a romances, ler uma peça de teatro gera um estranhamento inicial. Foi assim que me senti também ao ler “O amor do Soldado”, peça de Jorge Amado. Tchekhov nomeia as personagens, faz uma descrição simples do cenário, e parte para o ato, com variadas interações se alternando, gente entrando e saindo, mas o ambiente intacto, sem descrição de mudanças. Como alterna entre os nomes e os apelidos (Maria torna-se Macha, ou Machenka), algumas vezes tive que reler os trechos, buscando entender a quem uma fala se dirigia. Tudo o que acontece - e não espere muita ação - é descrito nas falas deles. Não há recursos descritivos para o que está acontecendo. Não há uma voz do autor, outra característica deste tipo de obra.

Não cheguei a sentir falta de um fecho. Não há essa necessidade. Estamos acompanhando a história como alguém que observa pela janela, despercebido. Não sabemos o passado, e tampouco o futuro daqueles que se manifestam, e entendemos o que acontece com base em dicas de suas falas, ou em lacunas que preenchemos com nossas teorias. Não estamos testemunhando um acontecimento atípico, apenas o fluxo da vida, suas conclusões e insatisfações.Fiquei suficientemente entretido com o fluxo ao longo da peça. As personagens bem descritas fazem você querer acompanhar as cenas, digerindo o que cada uma pensa, analisando e mergulhando em seu contexto de vida.

Os temas envolvem desde os costumes russos e interação entre familiares e conhecidos, a uma crítica social. Formado médico através de seu esforço, Tchekhov viu e tentou ajudar os pobres de sua cidade. Critica a aristocracia russa, tanto quanto Tolstoi tenta fazer com seu Liêvin (Ana Karenina). Mostra-lhes a futilidade e falta de propósito de vida. O tédio irremediável, e seu combate por meios duvidosos, como o acúmulo de cultura,  brigas pueris, a bebida, ou o jogo.

Talvez tenha sido o cenário que antecedeu às revoluções que ocorreram naquele país, e que tanto alteraram o panorama político e econômico mundial. Ainda assim, não é explícito ao abordar o tema, não torna o livro panfletário. Escolhe como meio de entrada nesse assunto o drama de pessoas hábeis e inteligentes, que não conseguem ver seu valor e sentido para vida por não constituírem sua identidade social através do produto de algum trabalho.

“Ah! A nostalgia do trabalho! Como a compreendo, meu Deus. Nunca fiz nada, em toda a minha vida. Nasci em São Petersburgo, uma cidade fria e ociosa. Nasci de uma família que jamais conheceu trabalho e preocupações. (...) Já se está preparando uma boa e formidável tempestade que avança, que já está perto, que muito breve vai cair sobre nossa sociedade e vai ´varrer´ a preguiça, a indiferença, a podridão do tédio, os preconceitos contra o trabalho. Um dia, trabalharei.”

Como primeira leitura, provou seu valor (como se pode atestar nos trechos selecionados abaixo), mas talvez se deva começar por uma de suas crônicas. Numa pesquisa rápida, a mais famosa é “O Jardim das Cerejeiras”.

Frases selecionadas:

“Muitas vezes penso: e se recomeçássemos a vida, desta vez conscientemente? Se vivêssemos uma vida como quem faz um rascunho, e pudéssemos vive-la de novo passada a limpo? Então cada um de nós teria sobretudo tentado não se repetir e tentado criar condições d evida diferentes, uma casa florida, como esta, cheia de claridade.”

“Depois de nós, os homens viajarão de balão; as roupas terão mudado de forma; descobrirão, talvez, um sexto sentido e o desenvolverão, mas a vida continuará a mesma, uma vida difícil, plena de mistérios e feliz. Daqui a mil anos o homem suspirará como hoje: “Ah! Como a vida é dura!”. Mas, da mesma maneira que hoje, terá medo e não quererá morrer.”


“A vida é pesada para se carregar. Muitos entre nós a consideram silenciosa e desesperada e no entanto devemos confessar que ela se torna dia a dia mais luminosa, mais fácil e tudo nos faz crer que não está longe o tempo em que ela se iluminará inteiramente.(...) Hoje tudo isso já foi vivido, deixando para trás um enorme vazio que não sabemos evidentemente como preencher. A humanidade procura apaixonadamente e encontrará, é certo, Ah! Mas que ela se apresse!(pausa) Se se juntasse a cultura à capacidade de trabalho e a capacidade de trabalho à cultura, então...”

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Eu sempre gostei de imaginar que existe algo mais.

PARALELOS é o primeiro romance de Leonardo Alkmin. Sua carreira envolve atividades como ator e roteirista (Ah! Eu tenho muita vontade de escrever roteiros!).

Gêmeos num acidente de ônibus. Um morre, mas pelo plano divino, o outro é que deveria ter morrido. Isso cria um desequilíbrio nas leis universais. A história se desenrola, alternando entre os acontecimentos na terra, com o gêmeo que deveria ter morrido, e no outro plano, com o gêmeo que deveria ter sobrevivido.

A história contada por Leonardo Alkmin tem ritmo frenético de acontecimentos. Transmitiu para mim uma ansiedade do autor por fazer acontecer uma história, como se ele tivesse que passar por pontos pré-estabelecidos. Parece ter tido a necessidade de manter um volume de novidades vindo, num esforço para manter o interesse do leitor. Seria um vício de outros formatos a que ele se dedica? O esforço produziu mais de 400 páginas, mas não evitou um livro ralo.

Ele também tenta fazer suspense sobre o final, imprimindo uma atmosfera mais “thriller”, em especial na participação de uma repórter investigando a vida dos envolvidos no acidente. As coincidências que ele tem que criar para que a repórter consiga viver a história de perto são meio forçadas. De qualquer forma, consegue não ser óbvio, e o final não decepciona.

Do que eu gostei:

Da imaginação de criar toda uma hierarquia no universo pós-morte, e definir regras para sua interação com os vivos. Eu sempre gostei de imaginar que existe algo mais. Se você gosta de histórias que envolvam o plano espiritual, pode ter bons momentos de diversão, sem um ranço religioso.

Alkmin também é hábil ao descrever seus personagens adolescentes, o que me faz indicar o livro mais para esse público. As descrições de viagens, emoções maniqueístas, sentimentos amplificados, sensualidade, são bastante verossímeis. Parecem lembranças do próprio autor.

Do que eu não gostei:

Da necessidade de “justificar” as regras universais baseado em teorias da física. Tem trechos muito chatos, como:

“Ao se tocarem, provocavam a liberdade assintótica. Como estavam reduzidos a quarks, a liberdade assintótica era a saída obvia, porque, paradoxalmente, quando a distância entre os quarks diminui, a interação da energia fica mais fraca, até anular-se.”

Nesses trechos, os olhos vão correndo, até que um novo parágrafo nos devolve para a história principal. E esse “pedágio” se repete por vários capítulos, falando de quarks, muons, taus e todo o zoológico de partículas. O autor se atrapalha todo entre a individualidade que ele precisa dar aos personagens etéreos e seus dilemas, e as regras que definem que esses personagens “existem” mas não como indivíduos separados do todo.


Eu me lembro de ter tido esse mesmo desagrado quando li alguns livros da série “Operação Cavalo de Troia”, uma história legal, mas com páginas de pseudociência, só pra tentar dar uma aura de verdade à realidade proposta. Pra que isso?

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Autoajuda (Brendon Burchard – O Poder da Energia)

Autoajuda (Brendon Burchard – O Poder da Energia) – Ed. Novo Conceito

Atire o primeiro volume aquele que nunca leu um livro de autoajuda. Todos nós temos uma eterna luta a travar com nossos desejos e limitações, e, não podia ser diferente, há sempre alguém disposto a nos vender o “pulo do gato” para superarmos nossas dificuldades. Seja um comprimido, um jeito de pensar, um estilo de vida, uma dieta, um preceito religioso, qualquer um que acredita ter encontrado o caminho passa a professá-lo como solução para todos.

Se for esperto, vira palestrante e lança um livro desvendando seu caminho “infalível” para a felicidade. Brendon Burchard fez isto. Ganha dinheiro dando palestras e treinamentos sobre seus métodos, e é claro, vendendo livros. Seu “O poder da energia”, quarto livro da carreira, foi Best-Seller n1 do New York Times, seguindo o sucesso dos anteriores.

Somos como Burchard, apenas menos ambiciosos. Aquilo que está dando certo para nós é rapidamente incorporado a nosso discurso aos amigos deprimidos. Diante de qualquer crise, nossas respostas frágeis e temporárias para o mistério da vida tornam-se os salva-vidas que atiramos aos que se afogam.

Aos 15 anos, estabeleci algumas metas e vi meu foco aumentar e a maioria delas se realizar. É uma prática que renovo a cada 3 anos em minha vida, e divulgo este hábito para todos que conheço. Por trabalhar com Psicologia Organizacional, estou sempre lendo material sobre a superação de limites. Recomendo especialmente os livros de Anthony Robbins – “O Poder sem Limites” e “Desperte o Gigante Interior”, que sempre me ajudaram de maneira prática. Burchard também cita este autor em seus agradecimentos.

"O Poder da Energia" também é bom. Ganha você logo de cara, num artificio de extrema sinceridade do autor. Ao invés de iniciar o livro contando como suas técnicas o levaram ao sucesso, ele cita momentos de grande tristeza, em especial uma tocante descrição sobre a morte de seu pai.

É a partir dai, que defende suas técnicas, como formas de superação e de “colocar mais vida na vida”. Ele primeiro iguala sua experiência à nossa, com altos e baixos, e depois apresenta com humildade sua proposta. Burchard dá dicas interessantes sobre como escolher seus objetivos e amigos, e como ser quem queremos ser para nós e para os outros. Faz isto sem aquela empolgação messiânica que tanto incomoda e tira a credibilidade de outros autores de autoajuda.

Com a guarda do senso crítico muito alta, você poderia abandonar o livro na página em que ele recomenda que devemos tomar seis (!) litros de água por dia. Ainda assim, ele logo será humilde novamente, reconhecendo que esta informação é polêmica, e convidando-o a experimentar por si mesmo.

A vida é uma viagem complicada, e é fácil encontrar buracos em qualquer solução proposta. Se as técnicas de Burchard dão certo para todos que lêem o livro: claro que não! Aproveitamos de qualquer forma aquilo que estamos prontos para colocar em prática, e deixamos de lado aquilo que não nos convenceu. Sua leitura produz essa sensação positiva de que tudo pode ser diferente, e que podemos corrigir a rota e seguir para rumos mais próximos da felicidade.

Já é bem mais do que pode ser dito da maioria dos títulos sobre o tema.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Revisitando Histórias em Quadrinhos

Tenho apenas duas coleções. Uma de selos e outra de quadrinhos. Tive interesse pela filatelia, seguindo o comportamento de vários amigos que lá por 1988 eram dedicados ao tema, mesma época em que comecei a curtir comprar, ler e guardar quadrinhos.

A coleção de selos da maioria dos amigos era modesta como a minha, com uns selos ganhados e trocados, outros comprados. Porém, uma delas superava a todas em quantidade e variedade. A coleção deste amigo era mais diversa e rica, porque seu pai havia reunido selos numa caixa de sapato durante a vida toda. Ao longo das inúmeras arrumações de casa, mudanças de cidade, mudanças de vida, mudanças de foco, ele perseverou, preservando sua caixa de sapato cheia de selos.

Foi admirando o poder deste gesto, que decidi guardar minhas coleções. Por simples que fossem, seriam antigas e raras quando meu filho se aventurasse em continua-las. Ele tem quatro anos agora, então não faço ideia se um dia ele continuará a coleção, ou se apenas vai joga-la fora ou vende-la. De toda forma, preservei meus selos e meus gibis (como chamávamos antes de as novas gerações inventarem nomenclaturas mais elaboradas), e espero ter a chance de entregar a ele quando for mais velho.

Meu interesse por quadrinhos aumentou quando um amigo daquela época me mostrou que os quadrinhos poderiam ser mais do que “Turma da Mônica”. Passei a colecionar as revistas dos heróis da Marvel (e uns poucos da DC), em especial as histórias do DEMOLIDOR e do JUSTICEIRO. Gostei no jeito “cinematográfico” de contar histórias, dos roteiros radicais, e dos atos de heroísmo. Fantasiei ter poderes e esconder minha identidade secreta, que quase sem querer seria eventualmente descoberta pela garota de quem eu gostava. Quem quiser dar uma olhada na coleção, basta visitar meu perfil no skoob.

Há pouco mais de um mês, um conhecido casou, mudou para um apartamento pequeno e foi vencido por um ultimato da esposa. Aceitei imediatamente a honra de ganhar sua coleção. Guardaria-a com cuidado, junto da minha, não antes de cadastra-la na minha “estante”.  Para fazer isto, além de localizar os títulos, era importante lê-los. Fazia mais de vinte anos que eu não abria um gibi.

Da experiência, um bom e um mau resultado. Começando pelo mau, NÃO AGUENTEI ler X-MEN. Terei mudado eu ou a linha editorial? Provavelmente os dois. Achei que eles só pensavam em lutar, com bravatas babacas contra os inimigos: “isso porque você ainda não provou meus poderes”.  Frustrantes também as experiências com o HULK, QUARTETO FANTÁSTICO, e apenas suportáveis com HOMEM-ARANHA. Havia pouco DEMOLIDOR e nenhum JUSTICEIRO, infelizmente.

E a boa experiência? SPAWN!!! Não existia no tempo em que eu acompanhei, então li quase a coleção toda sem parar, até o N100 (faltando alguns). Desenho primoroso, roteiro melhor ainda. Suspense de primeira, uma trama com toques religiosos, outros policiais. O clima é fantástico, te transporta para noites chuvosas e sinistras. SPAWN é tudo o que o Batman tentou ser, sem conseguir.

“Sirenes distantes, gritos abafados e suspiros de amantes rompem o silêncio noturno. Uma voz flutua acima das demais, ecoando pelas trevas. Suave como um sussurro e poderosa como um trovão. Você pode ouvi-la?  - Este é o destino que eu escolhi. Este mundo e suas sombras me pertencem. Agora e para sempre...eu sou o SPAWN!”


Não sei se há esperanças para o velho leitor de quadrinhos que existe em mim. Mas este “revival” de leituras de gibis me ensinou uma coisa nova. A boa literatura não está apenas nos livros clássicos. Ela também pode se apresentar numa história ilustrada, na crônica da revista semanal, num capítulo inspirado de novela, num filme que nos marca. Basta não termos preconceito e direcionarmos nosso olhar sedento, em busca daquele detalhe que vai prender nossa atenção. Contar e ouvir histórias está em nós de maneira indelével.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mergulho Filosófico

(Sobre “Um, nenhum e cem mil” – de Luigi Pirandello)

Até onde você está disposto a ir, quando mergulha em seus pensamentos e reflete sobre sua vida, sua identidade e um sentido para suas experiências?

Intuo que todos nós temos esses momentos filosóficos pessoais. É uma necessidade, como dormir e comer. Melhor, é um automatismo, como o pulsar de nossos corações. Temos esta impressão de que somos únicos e especiais, ao garimparmos boas ideias em nosso íntimo, ao mesmo tempo que ansiamos por ver essas ideias também descobertas por outros. Ficamos felizes quando as vemos confirmadas nas palavras de alguém que respeitamos, ou nas páginas de um livro.

Uma epifania está lá, espreitando no escuro, para te pegar no momento entre a vigília e o sono, ou ensaboado no banho, entre as falas de uma aula, num copo  de vinho, ou observando as faixas na  estrada. É como se distraídos pudéssemos acessar uma prateleira com informações que sempre estiveram lá, mas por alguma razão permaneciam empoeiradas, aguardando que explorássemos seu conteúdo.

Algumas dessas ideias que construímos, tenho a impressão, não evoluirão até mais do que simples sensações ou certezas, difíceis de traduzir em palavras. Quando tentamos fazê-lo, parecem perder seu charme, sua sabedoria se esvai, fugidia – ou pior, tornam-se errôneas, incompletas. Outras vezes, nos vemos chegando a conclusões já conhecidas e expressas por outros, com uma sensação de que chegamos a ela de um jeito novo, e que ao invés de termos andando em círculos, traçamos um espiral, revisitando ideias num nível acima do anterior, renovados por alguma mudança que sua chama produziu em nós.

Neste livro, o personagem descobre, a partir de um inocente comentário da esposa, que não é quem pensa que é. Ou melhor, que é para cada um que o vê uma pessoa diferente. Impotente diante da construção que os outros fazem de si. Esta descoberta evolui com as páginas do livro, com implicações enormes em sua vida.

Luigi Pirandello faz este mergulho sem qualquer rede de segurança. Olha para a escuridão confiante, como se soubesse de antemão ser capaz de lidar com quaisquer perigos que saíssem dali.  Mais que isso, convence-nos que não é ele próprio (o autor) quem faz este percurso, mas seu personagem principal. Podem imaginar como é fascinante ser testemunha dessa façanha? Ler o destrinchar de pensamentos complexos, traduzindo-os na experiência e contexto de seu personagem, convencendo-nos que não se trata dele próprio? Dar a esta divagação ritmo suficiente para que possamos acompanha-lo, e ao mesmo tempo sermos surpreendidos ou uma ou outra decorrência desta ideia inicial.

Achei fantástico. Virei fã, e sem dúvida procurarei outros livros do autor.

Trecho Selecionado:

 - Porque para se ver é preciso fechar a vida em um átimo. Como diante de uma máquina fotográfica. A senhora assume uma pose. E posar é como se tornar uma estátua por um momento. A vida se move continuamente, e nunca pode ver a si mesma.
 - Quer dizer que eu, viva, nunca me vi?
 - Jamais como eu posso vê-la. Mas eu vejo uma imagem da senhora que é só minha – uma imagem que certamente não é a sua. A sua, viva, a senhora talvez a possa ter vislumbrado em alguma foto instantânea que lhe fizeram. Mas sem dúvida deve ter tido uma ingrata surpresa. Talvez tenha até relutado em se reconhecer naquela imagem descomposta, em movimento.
 - É verdade.
 - A senhora só pode reconhecer-se posando: estátua sem vida. Quando alguém vive, vive sem se ver. Conhecer-se é morrer.
(...)
Estou certo de que ela, assim como eu, depois daquela fala e de tudo o que já lhe dissera sobre o tormento do meu espírito, experimentou naquele exato momento a sensação de ver abrir-se à sua frente, desmesurada e tanto mais pavorosa quanto mais lúcida, a imagem de nossa irremediável solidão.
(...)
Todo o orgulho desmoronava.
Ver as coisas com os olhos que não podiam saber como os outros olhos a viam.
Falar para não ser entendida.
Não valia mais nada tentar ser alguma coisa para si.

E nada mais era verdade, já que nenhuma coisa era em si verdadeira. Cada um por sua conta a assumia como tal, apropriando-se dela para preencher a própria solidão e dar à sua vida uma consistência qualquer, dia a dia.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Marcas de um futuro promissor

No caminhar do autor, em especial no Brasil, muitos são os argumentos para desistir. A falta de um mercado interessado, a pobreza de nossa formação básica, dificuldades econômicas, tudo isto dificulta. É por isso que admiro profissionais de diferentes áreas que se arriscam pela madrugada, iluminados pela luz pálida de seus computadores. Quando a casa está mais calma e o vinho fez efeito, emerge em diferentes lares o(a) corajoso(a) capaz de enfrentar a página em branco do editor de textos.

É por isto que gostei da iniciativa da editora de “Marcas na Parede” (Andross, 2009), de divulgar trabalhos que são as raízes para a carreira de autores iniciantes. Ver orgulhoso seu nome no livro (embora alguns textos da capa estejam com contraste ruim), expor-se à crítica de amigos, familiares e leitores anônimos, conhecer suas próprias deficiências e aptidões. Não há jeito fácil de fazer isto. É preciso se expor. Alguns o fazem em blogs, interessante alternativa, mas nada te prepara para o prazer de ver um livro com seu nome dentro.

Sei como pode ser intimidante lidar com um texto longo e uma narrativa com muitos acontecimentos e personagens. Começar pequeno é a chance de lapidar frases, conhecer a reação do leitor, enfim, experimentar ser autor num ambiente controlável. O texto pequeno é mais palatável a autores e leitores. Mesmo o mestre Machado de Assis, publicou seus “Contos Fluminenses” em 1870, antes de seus romances famosos, possivelmente exercitando-se para a maestria que apresentaria a seguir.

Há algo de novo nos filmes e livros de terror lançados ultimamente? Sempre giram em torno de nosso medos ancestrais: do escuro, do predador, de ficar sozinho, de morrer. O gênero “terror” é bastante batido, mas os autores de “Marcas na Parede” aceitaram o desafio e imitaram a coragem de seus personagens: entraram na sala escura, enfrentaram seus medos e demônios.  

Candelabros, casarões, cheiros pútridos, velas, monstros, maldições... “Marcas na parede” é composto por muitos contos, de três a seis páginas de duração, cheio dessas palavras e clichês, distribuídas pela imaginação de um número grande de autores. Trata-se de literatura juvenil, mais simples de acompanhar, com histórias curtas, poucos personagens, poucos acontecimentos. Ótimo para indicar para aquele amigo que acha “cult” o gênero, ou para quem ainda está treinando como leitor.


É nessa simplicidade que está sua maior virtude. Pode ser a porta de entrada para literaturas mais elaboradas no gênero, depois que sabe os policiais, e talvez direto para a literatura universal, quem sabe? Desarme seu senso crítico, e curta uns minutos de arrepiante leitura. Recomendo particularmente o conto de carnaval.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Nosso Leitor: Mentes Quietas e Vulneráveis...

“Mentes Inquietas” e “Mentes Perigosas”, de Ana Beatriz Barbosa Silva, chegaram a minha lista de leituras de um modo estranho. Estavam numa pilha de livros que o proprietário original não julgou dignos de guardar na estante. Foi meu primeiro aviso de que não eram tão interessantes, mas decidi ignorá-lo, curioso para entender porque a autora se tornou best-seller.

Sempre acho que ao ler um livro popular, vou desvendar por que fez sucesso. Acabei com algumas suposições, e algum desânimo também, que explico ao final.

A autora explica que as páginas visam trazer assuntos médicos e técnicos a um público leigo, mas idiotiza este público. As informações são rasas, cheias de dicas que considero ofensivas à inteligência do leitor, dada sua obviedade:

Ao dar dicas de relacionamento: “Tente sempre se colocar na posição do seu par. Lembre-se de que cada pessoa tem sua maneira de ser. Respeite o jeito do outro para que você também possa ser respeitado.”

SÉÉÉRIO???E por ai vai, dando dicas para professores respeitarem e terem paciência com as crianças, e outras informações nada valiosas. De onde vem isto? Você já viu um médico considerar o público leigo incapaz de entender algum assunto? Não, não acontece... Pois é, minha gente: a informação como mecanismo de submissão.

Mas se é raso, ofende a inteligência do autor, por que “Mentes Inquietas” fez sucesso e gerou uma sede da editora por mais pérolas da autora? Ora, todo mundo pode lançar um livro mais ou menos, mas aprende com a experiência do leitor, vai se desenvolvendo. Minha hipótese para este sucesso que desencadeou novos livros é: porque somos uns mimados. Isso mesmo! Num mundo individualista, em que os sucessos e fracassos são reputados ao indivíduo, sem considerar os fatores externos intervenientes, é ótimo termos uma desculpa para nossas dificuldades. Daí a formula mágica:

CRIAR IDENTIFICAÇÃO DO LEITOR COM O TEMA

Ana Beatriz escreve:

“De forma resumida, seguem algumas dicas que servem de auxílio para dar o primeiro passo rumo ao diagnóstico de TDA (Transtorno de Deficit de Atenção) em uma criança:
1) Com frequência mexe ou sacode pés e mãos, se remexe no assento, se levanta da carteira (...)
2)É facilmente distraída por estímulos externos(...)
3)Tem dificuldade de esperar sua vez em brincadeiras ou em situações de grupo (...)”

E por ai vai... 100% das crianças que conheço preenchem o critério diagnóstico simplificado pela autora. E nós todos já fomos crianças – assim... o primeiro objetivo foi atingido: criar identificação entre você e o tema. Você se descobre um TDA incompreendido.

DESCULPAR NOSSAS FALHAS

Agora que intimamente me sinto TDA, descobrirei sobre interpretação benigna da autora sobre o advento deste diagnóstico:

“Onde essa história se iniciou, não se sabe dizer; no entanto, a mudança no “foco” da questão possibilitou retirar o TDA da esfera moralista e punitiva e leva-lo para uma esfera científica e passível de tratamento. É isso o que realmente importa.”

O que se seguirá é uma discreta indução, mostrando primeiramente que as pessoas com TDA não têm realmente culpa por serem dispersas, por vezes desorganizadas, impulsivas. Um depoimento deixa isto claro:

“Só saber que eu era TDA tirou uma tonelada de meus ombros. Eu não era bagunçado porque queria ou porque era preguiçoso. Eu tinha dificuldades concretas mesmo!”

Não cabe mais ao TDA trabalhar a disciplina ou regular seu desejo, capacidade difícil para todos desenvolvermos, em maior ou menor grau. O TDA foi declarado incapaz disto, precisa de medicamento! Pode sentar enquanto o medicamento faz sua parte.

MOSTRAR NOSSOS PONTOS POSITIVOS

Agora que me sinto TDA, não me culpo por minhas indisciplinas e dificuldades com impulsos (que afinal são fruto de um determinismo biológico), posso agora olhar para o lado brilhante do TDA. A autora mencionam em vários momentos a necessidade de não olharmos os TDAs com uma postura julgadora e moralista, mas faz um julgamento moral no sentido contrário. Na escolha dos depoimentos, os TDAS são figuras criativas, de ritmo mais forte e maior perspicácia, diferentes dos medíocres normais:

“Costumávamos acampar com amigos até que resolvemos que seria melhor viajarmos sozinhos, pois ninguém acompanhava o nosso ritmo.”(...)

Ou várias citações atribuindo aos TDAs uma chave extra para as invenções do mundo. Há até uma lista de possíveis TDAs, como Einstein, Fernando Pessoa, entre outros ilustres...

E O SEGURO DA AUTORA: INFORMAÇÕES CIENTÍFICAS

Para não ofender seus iguais, a autora coloca uma serie de relativizações, estas sim com fundamento teórico. Informa que o diagnóstico de TDA depende  de muita observação (igualzinho vemos os psiquiatras fazerem antes de receitarem ritalina para crianças), que tudo é uma questão de grau, e que somos mesmo mentes diferentes tanto genética quanto no âmbito do comportamento.

Isso é verdade e claro no livro. Aliás, isto redime a leitora, e utilizo isto aqui também. É lógico que há pessoas com dificuldades fundamentais de concentração. O que não fica claro é a base ideológica para a decisão médica de criar este critério diagnóstico. Estatística! É possível traçar uma curva normal (normal para a estatística é o que é mais frequente) para os níveis e atenção e capacidade para disciplinar nossos desejos imediatos, e quem sai da norma é transtornado!

No “Mentes Perigosas”, encontramos uma autora mais à vontade. Ela agora é famosa, e vai variando títulos e o assunto principal, mas a formula se repete. Há a óbvia diferença de que não se pode empatizar os leitores com psicopatas. Nesse caso, você ficará melhor como vítima desses verdadeiros “lobos em pele de cordeiro”. Não há aqui um interesse em retirarmos um olhar julgador sobre o fenômeno da diversidade genética. Aqui é possível considerar esses “facínoras” como o mal personificado.

Se você foi prejudicado, não é porque estava indefeso ou lhe faltava experiências para avaliar o comportamento do outro e evitar um golpe. Claro que você nunca banca o bobo e é incapaz de se iludir! Afinal, você não tem culpa de haver maldade no mundo. Os psicopatas são seres moldados pelos seus objetivos pessoais e dispostos a tudo para obter o que querem. Nossa sociedade é em parte culpada por não puni-los ou mesmo por valorizar o individualismo, mas enquanto discutimos isto, eles estão lá, tramando pelos seus objetivos.


O desânimo que senti ao lê-los? Li dois livros da autora - para mim já deu. Como leitores somos ingênuos, e as editoras se aproveitam disto. Num sucesso embarcam outros, enquanto alguns bons trabalhos permanecem na fila de espera. A lógica não é a de cativar uma clientela com títulos de qualidade. É só vender mesmo, e ainda o fazem com falhas de logística e distribuição, basta ver a falta de títulos e a bagunça nas livrarias. Nosso futuro reserva apenas livros em série, títulos sobre liderança e autoajuda? Parem o mundo! Quero descer....

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Esperança no Ser Humano?

Gosto de aproveitar o que posso de cada leitura. Enquanto lemos, nossa cabeça viaja, associando seu conteúdo a nossas experiências pessoais, leituras anteriores, opiniões. Resulta disto que muitas vezes não é o livro em si que faz mover as engrenagens da cabeça.  As vezes, o enredo e personagens tão trabalhados pelo autor tornam-se meros panos de fundo, e o prazer da leitura deriva de uma experiência muito pessoal, exclusiva. Puxamos um fio do novelo do autor, e por vezes corremos algumas páginas com olhares vidrados, dando pouca atenção ao que está à frente dos olhos, concentrados no que está atrás deles.

Acho que aproveitei mais de meus pensamentos pessoais do que d´A Cidade do Sol em si. Não me levem a mal. O Best-seller de Khaled Hosseini tem muitas qualidades. Edição bem feita, bem traduzida (me pareceu), tem ritmo bom, tema interessante, mas desde o início você já sabe qual será sua fórmula. O autor vai explorar o tema da opressão da mulher no regime Talibã.

No balanço, mostra a capacidade humana de fazer coisas terríveis uns aos outros, bem como a resiliência do ser humano, capaz de lutar contra tudo e contra todos. A opressão da violência sexual, colocada em comparação com a beleza do amor maternal. É bonito, mas batido também. Foi nesse ponto que minha cabeça “derivou”, por assim dizer.

Devemos pensar historicamente. Há poucas gerações, governos ocidentais faziam execuções públicas com enforcamento ou guilhotina. Era aceito na época. Hoje não é mais, e choca nossa opinião quando alguém infringe uma lei que não entendemos, e sofre uma punição que consideramos bestial. Então, qual seria o limite entre as diretrizes pelo respeito ao ser humano, e o respeito a diferenças culturais e valores? Como decidir (e impor a outros povos) o que é certo ou errado?

Acho que o ponto de equilíbrio está num lindo documento de 10/12/1948. A declaração Universal dos Direitos Humanos é uma obra que respeita diferenças, mas estabelece um “ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações”. Infelizmente, muitos de nós preferimos ignorar as premissas deste documento, e continuar investindo em argumentos que nos separam – religiosos, nacionalistas, políticos, étnicos, etc.


Não perco a esperança. Gosto de pensar que nossa evolução, por dolorosa e lenta que possa parecer, é também inevitável. É essa minha expectativa para as mulheres afegãs representadas no livro de Hosseini. É minha expectativa que cada opção por um comportamento gentil e respeitoso contribua para o mundo que quero deixar para meus filhos. Utopia?

domingo, 5 de janeiro de 2014

Leitura Escolar: O Primo Basílio

Mais uma releitura para ressignificar aquela sensação que a gente tem quando é obrigado a ler algo para a escola. Com “O primo Basílio” tinha sido assim. Li por obrigação, há muitos anos. As escolas são ótimas para ensinar como não gostar de ler.

A novidade nessa releitura? “O primo Basílio” é um livro delicioso! Cuidadoso na forma e com ritmo muito bom. Embora lido numa edição barata (com papel feio, letras miúdas e pouco espaço entre linhas), não me cansou nem um minuto, e mesmo obrigou a postergação das horas de sono em algumas oportunidades.

Eça de Queiroz é reconhecido por suas críticas sociais. Já tinha visto este lado do autor em “O Crime do Padre Amaro” (tem uma resenha minha no Dose Literária). O que mais me chamou a atenção, para além das críticas sociais bem pertinentes, foi a boa construção das personagens.
O autor tem uma interessante maneira de mostrar como nossa percepção do mundo é dependente de nosso estado de ânimo. Ele descreve o ambiente num dia de bom humor de Luísa:

“Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céu arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas velhas e, aqui e além, uma nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a água do tanque uma cristalinidade fria; pássaros chilreavam de leve com vôos rápidos.”

... ou num dia em que a personagem não está tão confiante:

“Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava com os incensos e os almíscare das florestas aromáticas, imóvel sobre seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.”

Em diferentes momentos, as personagens do livro (principais ou secundárias) se visitam. Quando travam suas discussões e interações, é muito engraçado – e um irônico retrato da realidade – como os interlocutores não se ouvem. Cada um em seu mundo, retomando seu foco em sua vez de falar, ignorando completamente o que foi tratado pelo outro há segundos atrás.

Todos fazemos isto, em maior ou menor medida. Muitas vezes escutei boas dicas, mas só fui capaz de entende-las quando era tarde demais para evitar uma dura lição. Do outro lado, já sugeri linhas de ação a clientes e alunos, e vi claramente que não entendiam o que eu priorizava – escolhendo agir diferente - para retornar após um tempo reconhecendo que eu estava certo. Me divirto agora, lembrando que muitas vezes faço resenhas de livros sem ler as de outros leitores, esquecendo o fator enriquecedor gerado por outros pontos de vista.

Não sei ao certo por que hesitamos tanto em beber da experiência dos outros. Acho que nos acreditamos especiais, impedindo-nos de aplicar a experiência dos outros a nossa existência. Não enfiamos o dedo na tomada, isto é certo, mas nos atiramos às paixões (materiais ou imateriais) como perfeitos idiotas, na crença de que “desta vez é diferente”.

E você, já reconheceu a existência (e inteligência) dos outros?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Assustadora História de Nossa Ignorância

Muito bom o livro de Richard Gordon “A assustadora história da medicina”. Seu estilo é de humor ácido, destacando como esta aparentemente distinta ciência viveu muito tempo de misticismo, chutes, ou acasos, até que fossem descobertas algumas de suas bases.

Quando eu tinha 15 anos, imagino que como todo mundo, minhas ideias sobre a vida eram deveras incompletas, distorcidas. Certezas categóricas que se provaram absurdos completos, muitas vezes. Da mesma forma, minhas ideias aos 38 possivelmente parecerão esdruxulas ou incompletas quando eu tiver 60. É justo pensar assim?

Que dizer então da evolução da ciência? Nossas ideias no inicio do século XX parecem absurdas, e em breve nós veremos o quão idiotas somos ao tratar (ou padecer) de certas doenças que no futuro serão dominadas.

Sem métodos para estudar fenômenos estatísticos, comunicar diferentes experimentos e especialistas, a medicina, tal como outras ciências, engatinhou até o século 20. Absurdos completos foram defendidos, da famosa trepanação (tratamento que consiste em fazer um furo no crânio, para fazer saírem os maus espíritos) até o completo desconhecimento sobre micróbios e a necessidade de operar em ambiente limpo.

Exercer a medicina era lidar com algo religioso – o território da morte e da dor, que outrora eram explicados e tratados com a religião, diretamente. Não por acaso, sempre houveram atritos entre os médicos e o clero. É dai também, imagino, que se iniciou o desproporcional status da profissão. Ainda há algo de místico na silhueta destes profissionais, que outrora utilizaram a bengala de ouro, e hoje usam jaleco e estetoscópio no pescoço. Suas falas cheias de certeza muitas vezes me lembram do adolescente de 15 anos supra-citado.

Enfim, voltando ao livro, o desenrolar tem ritmo bom, e muitos fatos interessantes, que explicam os nomes das doenças, de alguns pontos de nossa anatomia, ou mesmo de procedimentos e tratamentos. É bonito constatar nosso avanço.  Numa critica pontual, depois da página 170 o livro parece perder energia (o autor teria se cansado? Ou foi apressado pelo editor?). Há algumas frase repetidas no livro – que eu entendo fruto de edições desastradas.

É inequívoco o avanço, e com todos os recursos que temos, as pesquisas hoje seguem mais rápido do que as pessoas são capazes de acompanhar. O médico do futuro terá que se especializar ainda mais – e talvez tenhamos mais degraus para transpor na busca por solucionar um desconforto abdominal – do que só a visita ao clinico geral e ao especialista. Talvez tenhamos que ter novos degraus: sub-especialistas e ultra-especialistas. Talvez seja o destino de toda a ciência.

Só sei que hoje já e assim: se todos tivessem acesso à melhor medicina, já estaríamos quebrados como economia mundial. É uma equação que não fecha. Vamos torcer para encontrarem respostas baratas.

  
Frases selecionadas (ou pílulas de sarcasmo):

“Cientificamente, embora seja deprimente, não passamos de sacos à prova d´água cheios de produtos químicos carregados de eletricidade, que um dia sofrem uma pane de força."

 (sobre as primeiras tentativas de vacina para varíola) “É difícil imaginar se isso reprimiu ou fortificou sua idéia de que os médicos dão medicamentos que mal conhecem, para curar doenças que conhecem menos ainda, para seres humanos dos quais não sabem absolutamente nada.”

“Como sempre acontece na medicina, os médicos continuaram a discutir e os pacientes continuaram a morrer.”

“Os médicos da era vitoriana eram brilhantes na identificação de todas as doenças cuja cura eles desconheciam por completo.”


“Como Lister descobriu a assepsia, sem saber coisa alguma sobre estreptococos, e LInd curou o escorbuto sem conhecer a vitamina C, assim também Darwin fundou a genética, sem saber ciosa alguma sobre o ADN (*DNA – o tradutor também traduziu a conhecida sigla).

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Não aprendi a gostar de poesia

Quando pequeno, fiz aulas de piano por um bom tempo. A prática me aproximou de autores do período barroco, clássico e romântico, com claras influências em minha forma de ouvir música. Desse aprimoramento de meus sentidos, aprendi a apreciar algo mais elaborado, curtir e empatizar com as emoções que afloram quando ouço uma música – e também apreciar a evolução da técnica, o momento histórico – e mesmo a tecnologia que se desenvolvia nos instrumentos e orquestras para proporcionar grandes espetáculos.

Já com a poesia, foi diferente. Poesia tinha cara de tarefa de escola, de prosa com exigências de rima e métrica. Grilhões e regras que me impediam de traduzir meus pensamentos e sentimentos. Coisa de românticos piegas, ou de vaidosos, que por acharem fácil fazer prosa, complicaram-na com outras exigências.

Reconheço que não é assim para todo mundo. Outras pessoas refinaram suas habilidades e conseguem aproveitar a poesia. Não é verdade que não me sensibilizo – em especial com Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes – mas a leitura recente de “Melhores Poemas – Cecília Meireles” foi árida para mim. Passei por todos os poemas, reconheci sua qualidade, entendi (acho) seus propósitos, mas gostar, gostar mesmo, uns três ou quatro. Num livro de mais de 180 páginas...

Fica então meu pedido de ajuda para encontrar algumas respostas. O que te faz gostar de poesia? Como posso trilhar este caminho? Ou devo me resignar e entender que não é meu estilo preferido de leitura?

Trecho selecionado:

Até quando terás, minha alma, esta doçura,
Este dom de sofrer, este poder de amar,
A força de estar sempre – insegura – segura
Como a flecha que segue a trajetória obscura,
Fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?

(fevereiro 1955) – Cecilia Meireles

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Crônica de um sucesso anunciado

Como o título já foi o spoiler, não hesito em avisar que há uma morte no livro! Mas isto é tão acessório! Tudo fica na habilidade do autor em te contar uma história – te climatizar.

Na receita para um bom romance, o ritmo tem que ser bom – e Marquez foi mestre neste livro. Dava para ter lido num fôlego só.Livros também me interessam quando o personagem central é franco - verossímel, um destaque em alguma característica, mas aquela sensação de que não atingiu todo o seu potencial - como todos nós. Deve entregar-se a vida, seja ao desejo, ou a uma situação desafiadora – ambas aventuras que são como corredeiras: você embarca no fluxo das águas, mas não consegue controlar nada durante a viagem.

Marquez nos mostra a irmandade entre os povos de origem latina. Ao longo do livro, compreendemos completamente e nos deliciamos com os detalhes das fofocas, versões, ambientes e intenções. Somos capazes de acompanhar a importância de cada relato. Será que leitores de outros continentes saboreiam este autor na mesma intensidade?
Vemos os anacronismos de nossa vida cotidiana, dos hábitos dos homens de beberem e irem a puteiros, parecendo independentes, mas tão manipuláveis. Das exigências das mulheres guardarem sua virgindade e cuidarem da roupa e da cozinha, mas definirem os destinos com base em sua trama de comentários e relacionamentos. Hábitos que permanecem no imaginário latino, mesmo após séculos de luta pela igualdade entre os gêneros. As vaidades, os símbolos de status, as diferenças sociais tão típicas de nosso continente estão explicitamente retratadas no povoado e personagens descritos na trama. Qual a receita que produziu as desigualdades sul-americanas? Como mitiga-las?

Frases selecionadas:

“ A única coisa que minha mãe censurava nelas era o costume de se pentear antes de dormir. “Meninas”, dizia-lhes, “Não se penteiem de noite que os navegantes se atrasam”. Exceto por isso, pensava que não havia filhas mais bem educadas. “São perfeitas”, ouvia-a dizer com frequência. “Qualquer homem será feliz com elas, porque foram criadas para sofrer.””

“Convenceram-na, enfim, que que a maioria dos homens chegava tão assustada na noite de núpcias que era incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda da mulher e na hora da verdade não podia responder por seus próprios atos.”

“As luzes estavam apagadas, mas logo que entrei senti o cheiro de mulher morna e vi os olhos de leoparda insone na escuridão, e depois não voltei a saber de mim mesmo até que começaram a soar os sinos”

“Nasceu de novo. “Fiquei louca por ele”, disse-me, “louca de pedra.”, Bastava-lhe fechar os olhos para vê-lo, ouvia-o respirar no mar, o calor de seu corpo acordava-a à meia noite na cama.”

“Numa noite de bom humor, derramou o tinteiro sobre a carta terminada e em vez de rasga-la acrescentou num post-scriptum: “Como prova do meu amor, envio-lhe minhas lágrimas”

sábado, 26 de outubro de 2013

Nauseante coragem – A paixão segundo G.H.


(os trechos entre aspas são do livro)

A aba da capa apresentava o pequeno enredo, uma desculpa para a construção de sua filosofia.

 “ Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém.”

Assunto difícil. Olhar para os olhos vítreos de uma barata, e compreender sua vida, sua passagem fugaz e desimportante pelo tempo – e associá-la ao sentido da vida humana, correlacionando-os no divino.

Enfrentar o desafio de escrever sobre o sentido da vida exige coragem. Especialmente quando se evolui para descobrir sua ausência de sentido, ausência de solo firme. Buscar algo em que se apoiar é como florear nossa existência, atribuindo-lhe propósitos abstratos. Nossa vida passa despercebida diante da vida em seu todo, sejamos baratas, Mozart ou Einsten.

“O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo.”

Meditar sem objetivo, mas chegar a um. E ao perceber ter espremido toda a vaidade de sua percepção da vida, apresenta-la como experiência, contra as dificuldades de na língua em expor tal abstração, sem sentir-se envaidecida com o resultado.

“Ou não querer ter vaidade é a pior forma de se envaidecer?”

Mas ao fazê-lo com maestria, mostra sua habilidade de escritora. Como tornar poética a descrição de uma barata esmagada?

“Ela era arruivada. E toda cheia de cílios. Os cílios seriam talvez as múltiplas pernas. Os fios de antena estavam agora quietos, fiapos secos e empoeirados. A barata não tem nariz. Olhei-a, com aquela sua boca e seus olhos: parecia uma mulata à morte. Mas os olhos eram radiosos e negros. Olhos de noiva”


Obrigado, Clarice. Na despedida do livro, vi sua foto na contra-capa. Reparei em sua beleza fria, estrangeira, delicada e rude ao mesmo tempo. Seu olhar também é prenúncio de sua força.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O momento do leitor - "A idade da Razão"



Sempre que a leitura de um livro começa a empacar, procuro rever minhas impressões em busca de um “fio” a seguir. Procuro um propósito para o que está escrito ou para a forma como está escrito, peço ajuda na internet buscando por opiniões que forneçam alguma luz, leio uma biografia do autor e algumas resenhas, procuro compreender qual era o mundo em que o livro foi escrito, a que ideias foi exposto o autor.

Alguns livros mostram este “fio” que estimula a leitura ao proporem uma história empolgante, ou visitarem difíceis recônditos da alma humana, ou repisarem uma experiência real ou fictícia para compreendê-la em seus odores e sabores.  Há outros que tentam uma estética ou estilo novos, e há aqueles que não consigo colocar numa dessas categorias, mas que sobrevivem nos pequenos lampejos de genialidade, em trechos bem escritos. Qualquer uma dessas razões já foi suficiente para que eu cumprisse minha promessa (de terminar cada livro que começo), e tirar alguma coisa de bom dos momentos dedicados a um título.

Confesso que demorei a achar esse “fio” no livro de Sartre – “A idade da Razão”, que inicialmente me pareceu apenas um exercício hipotético de suas propostas filosóficas, no caminhar claudicante ( e devo dizer tedioso) da sua personagem principal. Mas seria só isso? Ou eu que achava “só isso”? Por que eu classificaria como “pouco”, poder ler um filosofo reconhecido, nobel de literatura, exercitando suas ideias? Mas a verdade é que minha primeira impressão de “A idade da razão” foi a de um livro cansativo.

Seria o livro? Seria eu? Ambos, provavelmente. Já aconteceu com todo mundo, não gostar de um livro num primeiro contato, e depois saboreá-lo em outro momento da vida. É possível que me falte maturidade como leitor para “A idade da Razão”.  É possível que não seja o momento certo. Sartre é para mim um quebra-cabeças desmontado, e não possuo a foto da caixa. Li sobre seu romance não-monogâmico com Simone de Beuvoir (que fez ela além de ser devassa para os padrões da época e namorada dele?). Vi uma foto dele em Cuba, com Che Guevara e Simone. Sartre que não queria distinções, mas convivia com figuras famosas de sua época. Queria estar “onde as coisas aconteciam”? Uma celebridade num tempo sem paparazzi ou tablóides?

Recomendo como desafio. E humildemente anseio por ajuda – para quem sabe um dia seguir lendo os outros livros que continuam a trama de “A idade da Razão”. Com coragem, acabei encontrando alguma coisa para me interessar, em diferentes trechos, que tento representar nos excertos abaixo:

(ao discutir a possibilidade de um aborto):“ - Deram-me um pacotinho depois da operação e me disseram: “Jogue isso na privada”. Numa privada. Como um rato morto! Mathieu – disse ela, apertando-me fortemente o braço – você não sabe o que vai fazer!
 - E quando a gente põe uma criança no mundo, a gente sabe? – perguntou Mathieu encolerizado. Uma vida! Uma consciência a mais, uma pequena luz perdida , que voaria em círculo, se chocaria contra as paredes e não poderia escapar.”

(ao beijar Ivich – já se sentiu assim ao fazer o primeiro movimento?): “Era amor. Agora era amor. Mathieu pensou: “que foi que eu fiz?” Cinco minutos antes aquele amor não existia; havia entre ambos um sentimento raro e precioso, sem nome, que não se exprimia por meio de gestos. E Eis que ele fizera um gesto, o único que não devia fazer, aliás não o fizera propositadamente, aquilo viera sozinho. Um gesto e aquele amor aparecera diante de Mathieu como um grande objeto importuno e já vulgar. Doravante, Ivich pensaria: “ele é como os outros”, e, a partir daquele momento, Mathieu amaria Ivich como as demais mulheres que amara.”

(numa experiência angustiada) : “Caminhava em silêncio, somente seus passos ecoavam na sua cabeça, como uma rua deserta pela madrugada. Sua solidão era tão total sob aquele céu, acariciante como uma consciência limpa, no meio daquela multidão atarefada, que ele se sentia espantado de existir; ele devia ser o pesadelo de alguém, de alguém que acabaria acordando.”

(UFF...esse momento foi tenso): “Morta a serpente, morre o veneno (...) Apoia a mão na mesa, ela responde à pressão com uma pressão igual, nem mais, nem menos. As coisas são servis. Dóceis. Manejáveis. “Minha mão fará tudo sozinha.” Boceja de angústia e tédio. De tédio mais ainda que de angústia. Está sozinho naquele cenário. Nada o impede de resolver; nada o impede. Tem que decidir sozinho. Seu ato não é senão uma ausência. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali; aquela poça vermelha no soalho não está ali. Olha o soalho. É liso, unido, não tem lugar para mancha. “ Estarei deitado no chão, inerte, a braguilha aberta e melada, a navalha estará no chão, cega, inerte” Contempla fascinado a navalia, o soalho; se pudesse imaginar nitidamente a poça vermelha e o ardor, de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si, sem que precisasse fazer o gesto! “A dor eu aguento. Quero-a, chamo-a. Mas é o gesto, o gesto.”


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Elegância da Literatura (Do Ouriço)

A Elegância do Ouriço - Muriel Barbery

Comecei-o em doses pequenas – poucas páginas por vez – pois estava terminando outro livro. Pareceu como tarde de degustação de cachaça, que a cada dosezinha vai nos afeiçoando, descendo mais fácil, sensibilizando, abrindo novas visões e sabores, fluindo.

Inicialmente, você tem a impressão de que é sobre a arrogância intelectual, ou sobre a futilidade da vida dos ricos e acadêmicos. As personagens, paradoxalmente, colocam-se arrogantemente num patamar acima desses que criticam, e são amargos, como os que despertaram do cotidiano e se perceberam em meio à vida fútil que a maioria vive.

Consegue então fazer crítica de si próprio: se por um lado valoriza o constante aculturar-se, por outro relativiza sua importância, ao lembrar que o bicho-homem está sempre (no fundo) atrás apenas de sexo e status (para conseguir mais sexo). Reconhece que não há inteligência na escolha por pensamentos infelizes, e esta reveladora conclusão dá ao livro uma dose de humildade que o abrilhanta ainda mais.

Constrói as personagens, nos afeiçoa a suas ideias sobre o sentido da vida, promove deliciosos encontros, e novas conclusões sobre este sentido. Faz-nos sentir como é especial encontrar e empatizar com seres humanos com gostos parecidos, que confirmam nossa visão do mundo, ou a questionam num nível que nos desafia e interessa. Refleti, ao escrever este parágrafo, que é por isto que escrevo minhas resenhas – para encontrar por ai pessoas que enxergam parecido, ou que se deixem instigar pelo que penso, mesmo que anonimamente.

É delicioso como a autora escreve frases profundas, bem elaboradas. Como se tivesse sido escrito por minha irmã, é de uma sagacidade! Cáustico! Sugere livro bem trabalhado, com verdadeiros trechos de “arte”. Vale muito a leitura. Um novo clássico. Diversão garantida que entrou para a lista dos meus preferidos.

Frases selecionadas:

 “...que nada é mais duro e injusto do que a realidade humana: os homens vivem num mundo emq eu são as palavras, e não os atos, que têm poder, em que a competência última é o domínio da linguagem.”

“Quando as linhas se tornam seus próprios demiurgos, quando assisto, qual um milagroso ato inconsciente, ao nascimento no papel de frases que escapam  à minha vontade e que, inscrevendo-se na folha apesar de mim, ensinam-me o que eu não sabia nem acreditava saber, gozo desse parto sem dor, dessa evidência não concertada, que consiste em seguir sem esforço nem certeza, com a felicidade dos espantos sinceros, uma pluma que me guia e me transporta.”


“(...) toda essa vida em que nos arrastamos, feita de gritos e lágrimas, risos, lutas, rupturas, esperanças desfeitas e chances inesperadas: tudo desaparece de repente quando os coristas começam a cantar. O curso da vida se afoga no canto, há uma impressão de fraternidade, de solidariedade profunda, de amor mesmo, e isso dilui a feiura do cotidiano numa comunhão perfeita.”

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sobre Constantino "Tolstoi" Lievin

Hesitei bastante em começar o “Ana Karênina” (que eu insistia em ler como se o circunflexo lá não estivesse). Volume grande, letras pequenas, difícil manuseio. O nome do autor traduzido “Leão Tolstoi” também não convidava... mas por que tanta unanimidade sobre este clássico? Eu precisava saber.

Foram algumas boas semanas até termina-lo. Não porque fosse chato, pelo contrário. Tolstoi tem grande habilidade para descrever discussões em torno de uma mesa de jantar, e tornar aquilo interessante para nós. Seu artifício é simples – típico dos romances psicológicos. O autor faz a gente entrar na cabeça das personagens. A construção das respostas e pensamentos são muito boas. Em especial na descrição das duplas amorosas, uma percepção destacada que o autor tem do universo feminino (e ainda bastante atual – quando se trata de sentir-se aceita ao conseguir um parceiro).

Há ainda um componente político no livro. Aliás, essas reflexões, importantes em especial na personagem de Constantino Lievin, permitem uma ligação importante entre a biografia do autor e esta figura por ele criada. Tolstoi deve ter feito o livro grande como uma cebola protetora para poder ali colocar suas reflexões em segurança. Como sua personagem, também opta pela vida em simplicidade.

A opção por simplicidade é uma resposta para a vida. Consome menos recursos, e nos faz menos escravos da materialidade. Há menor chance de explorarmos outros, mas também, menos contribuição para a roda de consumo que sustenta nossa sociedade, tal como é arranjada. Você ajuda ao contratar uma empregada doméstica e a paga na média do mercado? OU você a explora e a impede de exercer seu potencial como ser humano fazendo outra coisa? Uma discussão que espero que não fique entre aqueles que dividem o mundo entre o preto e o branco.

Por trás das escolhas políticas, permanece a relação do ser humano com sua biologia. Não são os jogos de poder, ou a hipocrisia da sociedade que fazem um homem e uma mulher se unirem. Estes são apenas o palco onde tais disputas ocorrem, motivadas por um imperativo animal. Os seres humanos são (também) animais. Ainda há inúmeros mecanismos de sedução por desvendar nesta espécie, mas a hierarquia social e o status sem dúvida têm relação íntima com o tema.

E é nas disputas de status social, inerentes ao jogo sexual, que as convicções políticas também se tornam importantes. Não é bastante adotar um estilo de vida que o faça mais feliz. É preciso alardear isto, conseguir que isto se torne um símbolo distintivo que faça suas escolhas parecerem melhores que a de outros. Para muitos, não bastará ser vegetariano. Será preciso militância pública. Não bastará ter o direito, será preciso afirmá-lo como um distintivo social – de fundo hierárquico/sexual.


Para Tolstoi – senhor de sua atuação política, mas escravo da biologia, não bastou apenas escolher a vida simples. Era preciso difundi-la e dela fazer propaganda para a família e demais relações. Num extremo tragicômico, segundo sua biografia (wikipedia), aos 82 anos decidiu sair de casa em busca da vida simples com valores que sua família não podia compartilhar. Viajou na terceira classe (mais simples), pegou pneumonia e morreu.  A morte sim, é algo que sempre nos igualou.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mais um Victor Hugo Cinematográfico


Os Trabalhadores do Mar – Victor Hugo

Ao começar a leitura do terceiro Victor Hugo de minha prateleira, logo de início já recebi um presente. A coleção da Abril Cultural – “Os imortais da Literatura Universal” inicia esta edição e Julho de 1971:

- Tradução de Machado de Assis
“O texto de “Os trabalhadores do mar” que aqui publicamos é o da segunda edição da tradução de Machado de Assis, feita em 3 volumes, pela Tipografia Perseverança, RJ, em 1866, e citada no “Dicionário Bibliográfico Brasileiro” de Augusto V. Alves Sacramento Blake (vol.IV, Pag 197, ed Imprensa Nacional, Rio, 1898). Atualizamos apenas a ortografia e permitimo-nos emendar alguns evidentes erros tipográficos. Conseguimos esse texto, hoje em dia bastante raro, do Dr Plínio Doyle, que mui gentilmente nos permitiu reproduzir, em xerox, um exemplar de 1866 de sua propriedade.”

Não tenho conhecimento técnico sobre tradução. Sou apenas um apaixonado por livros. Acho que a tradução é quase uma adoção – ou co-autoria. A obra do mestre Victor Hugo, traduzida por outro Mestre, só podia encantar! Eu me lembro de ter comentado em uma resenha recente, que estranhava a antiguidade da linguagem de uma tradução. Me questiono quando uma tradução deve ser atualizada – e agora mais especialmente – quando ela NÃO deve ser alterada.

Victor Hugo continua bastante “cinematográfico” para mim. A própria escolha da “gente do mar” para contar suas histórias já dá mais profundidade  à obra. As viagens ao mar permitiam literalmente ir além do horizonte, conhecendo o mundo, relativizando suas verdades culturais. Que caldo mais nobre para o fortalecimento da alma humana?

Seu desenrolar das histórias em diferentes núcleos de personagens que se cruzam (que comentem em resenhas anteriores), faz com que se crie uma espécie de cumplicidade com o leitor. Assim, ele pode num capítulo descrever um vulto, com uma determinada roupa, que desempenha determinadas atividades, sem nunca citar qual o personagem, mas com a certeza de que sabemos qual é , e de que continuamos no “fio” da história. O ambiente inteiro é descrito, sem que esta exposição seja enfadonha. Você conseguirá sentir a brisa, o cheiro de mar, a rispidez do solo, o ferimento numa pedra pontiaguda, a dificuldade de uma peripécia.

Em alguns trechos, o emocional vai crescendo – e você intui o que vai acontecer. Ainda que previsível, uma alegria te invade quando suas expectativas se confirmam, qual uma criança que ganha o que tinha pedido. Te faz correr pelas páginas, perder um pouco do sono noturno, atrasar o próximo compromisso, protelar uma tarefa importante – continuar colado no livro.

Seu ritmo é ágil, e não há trechos áridos, como em “O corcunda..” ou “Os miseráveis..”. Nada é excessivo – tudo compõe os personagens e cenários. Agora com 3 livros dele no currículo, reconheço seus personagens masculinos como sobreviventes fortes, unidirecionais – ou muito bons, ou muito maus. Não mudam de ideia, mas se entregam ao amor romântico. Já os femininos são dominados pelas emoções. Passam por dificuldades, mas não renunciam a seus sentimentos e vontades – desapercebidas de seu poder.

Para quem quer conhecer o autor, fica a dica – mas eu iniciaria por “Os Miseráveis”.

Trechos selecionados:

“Havia nele a ligação do alucinado e do iluminado. A alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao espírito do Homem. (...) Resulta daí um mistoerioso estremecer de ideias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o profeta...”

“Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.”

“Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra...”

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Viagens de Gulliver - Algumas Viagens na Maionese


Minha intenção ao escolher este livro, foi a de continuar preenchendo minhas lacunas na leitura de clássicos mundiais. Esta obra de Jonathan Swift está certamente listada entre os mais lidos, mas confesso que sua leitura foi um pouco cansativa para mim. Eu vinha de uma sequencia de literatura mais adulta, e senti falta das frases mais pesadas e reflexivas. O livro todo é cheio de nomes que achei infantis, como “Glubdubdrib” ou “Luggnagg”.

Foi traduzido como “Viagens de Gulliver”, mas seu nome de lançamento foi “Travels into Several Remote Nations of the World, in Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of several Ships” (trad: Viagens para várias nações remotas do mundo, em quarto partes, Por Lemuel Gulliver, primeiro um cirurgião, e então o capitão de vários navios”). Antes de ler o livro, todas as vezes em que olhava para ele na prateleira lembrava de duas coisas: o antigo desenho “As aventuras de Gulliver” (tem aqui: http://youtu.be/YVFq2e0sCeo ) que eu assistia quando criança, e as cenas mais adultas de “Laranja Mecânica”, em que Alex usava a palavra Gulliver, como gíria (“Mum, I can't go to school today, my gulliver hurts” e “Yesterday we attacked this old man in the ally, he was being obnoxious, we hit got him right in the Gulliver”).

É possível que ele tenha feito alusão aos países reais e suas relações ao descrever suas viagens. No entanto, isto é bastante sutil, e não parece ser mais importante do que o entretenimento e histórias fantásticas. Mas explica:

“Isso talvez pareça ao leitor uma história antes ocorrida na Europa ou na Inglaterra, do que em país tão remoto. Digne-se, porém, considerar que os caprichos femininos não são limitados por nenhum clima ou nação, e são muito mais uniformes do que podemos supor.”

E dá lampejos de crítica social:

“As vezes, a briga entre dois príncipes é para decidir qual deles desapossará um terceiro dos seus domínios, aos quais nenhum tem direito algum; ás vezes, um príncipe briga com outro porque tem medo que o outro brigue com ele; as vezes, inicia-se uma guerra porque o inimigo é demasiado forte; outras, porque é demasiado fraco; as vezes, os nossos vizinhos querem as coisas que temos, ou têm as coisas que queremos, e ambos lutamos até que eles nos tomem as nossas, ou nos dêem as suas.”

Causa alguma emoção no início da leitura, uma vez que todos nós já ouvimos falar da viagem a Lilipute. A cena dele sendo preso por pequenos homenzinhos numa praia, com estacas e cordas, é uma das mais frequentemente mencionadas. O livro tem várias adaptações: cinema, música, versões ilustradas, teatro, quadro, etc. - mas não entendi por que todos se concentram na história da visita a Lilipute, ignorando os outros países visitados pelo personagem. Gulliver visita o país das pessoas pequenas, mas também visita outro de gigantes, uma ilha voadora, um país de cientistas, um de necromantes, e um país governado por cavalos – entre outras descrições breves de viagens a países conhecidos (Japão, Holanda...).

A cada contato com uma cultura nova, absorvia-lhes os idiomas e descrevia seus hábitos, procurando contribuir com experiências de viagens anteriores. Transparece na narrativa a visão da Europa, e em especial do Reino Unido, como o centro da civilização ou ao menos sua referência maior. Ainda assim, ele tenta reconhecer e mostrar como somos afetados por nossos hábitos e conceitos culturais ao julgar outros povos. A cada retorno à civilização, o personagem mostra estranhamento com nossos hábitos – e como os pequenos hábitos que assimilou, como sotaques, padrões de alimentação ou vestimenta, também geram comentários e observações desconfiadas. Talvez este sentimento esteja se tornando estranho no mundo globalizado, mas dá pra imaginar como era na época das navegações e descobrimentos.

Descreve um tempo antigo, em que as viagens e conhecimentos práticos do personagem causavam distinção entre os demais. Ele era cirurgião (sempre uma ocupação importante), sabia de navegação, idiomas, e tinha interesse especial pela cultura greco-romana. Sabia construir um barco, uma casa, suas próprias roupas e comidas. Trançar uma corda, improvisar fogo, caçar, etc. A todo o tempo, tenta transparecer esses conhecimentos e o domínio da linguagem técnica correspondente, como no trecho:

“Estava o navio em alto mar, de sorte que julgamos preferível correr com o tempo a capear, ou navegar em árvore seca. Rizamos o traquete, largamo-lo e caçamos as escotas; o leme estava bem a barlavento. Houve-se a nave bravamente. Amarramos a carregadeira do traquete; mas, estando a vela rasgada, arriamos a vêrga e, depois de pô-la dentro do navio, desatamo-la de tudo o que a prendia. Rugia a borrasca, violentíssima; o mar se agitava, estranho e perigoso.”

Não foi um dos meus preferidos, mas claro que vale a leitura.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

As dores do escritor


Resenha: Retrato do Artista quando Jovem


Sabe aqueles livros em que o autor consegue representar tão fidedignamente um personagem, que te transporta para dentro da cabeça dele? Joyce faz isto. Te transporta para a cabeça de um menino. 

Valorizo isto, pois sei o quanto é difícil. Não se trata apenas de contar uma história que envolva uma criança, mas reproduzir sua visão particular de mundo. Tem cuidados extremos, como uma percepção confusa das discussões adultas, uma vaga percepção de futuro, uma hipervalorização das regras impostas na escola, e a relação com figuras de autoridade. É tão fidedigno que sugere ser lembrança do autor, numa corajosa exposição. Está ali o inicio de sua personalidade – em vários pontos comuns à de cada um de nós.

Mostra nosso estranhamento com as regras do mundo, à medida em que o fazemos crescer em nossa criança. Um processo de “des-ilusão” – ainda assim amargo – que dá ainda mais peso para o conjunto de mudanças no corpo e nas relações com o mundo. Toda a criança passa por isto: esta construção da ilusão de uma identidade exclusiva (e ainda por cima nos achamos sempre mais espertos que os outros).

Com este artifício delicioso, coloca no cenário o que era ser uma criança na Irlanda daquele tempo. Um mundo mais adulto, menos concessivo do que o atual mundo infantil. Um mundo de um catolicismo mais amedrontador/punitivo do que aqui no Brasil, em que os instintos de um jovem em crescimento se debatem com a culpa incutida por padres e professores.

Da criança para o adolescente, e agora o ambiente é mais complicado. As angústias em relação ao futuro,  a cobrança em momentos de decisão que definirão muito do que será sua vida, a influência dos amigos e dos mestres. Tudo isto sem apelar para uma super-visão. Tudo dentro do horizonte de percepção do próprio Stephen Dedalus (personagem principal).

Por fim, vale o comentário de que os adolescentes retratados possuem uma cultura geral muito maior do que a nossa. Seria a solidez da educação? Sobram frases em latim e discussões complexas sobre religião e estética – bem interessante, por sinal.

Frases selecionadas:

“Da má semente da ambição todos os outros pecados mortais tinham saltado: orgulho de si próprio e desprezo pelos outros; avareza em guardar dinheiro para a compra de prazeres ilícitos; inveja daqueles cujos vícios não podia atingir; caluniosas murmurações contra os piedosos; voracidade em sentir os alimentos; a estúpida raiva em que ardia e nomeio da qual examinava o seu tédio; o pântano de espiritual e corporal indolência dentro do qual todo o seu ser estava atolado.”

“A narrativa tampouco é meramente pessoal. A personalidade do artista passa para a narração mesma, enchendo, enchendo de fora para dentro as pessoas e a ação como um mar vital. (...) A personalidade do artista, no começo um grito, ou uma cadência, ou uma maneira, e depois um fluido e uma radiante narrativa, acaba finalmente se clarificando fora da existência, despersonalizando-se, por assim dizer”

“O seu espirito, esvaziado de teoria e de coragem, ia tombando numa paz desinteressada”

“A sentença mais profunda até hoje escrita – disse Temple, com entusiasmo – é esta sentença, no fim da zoologia: A reprodução é o começo da morte.”

“Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me  por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.”

“Sê bem-vinda, ó vida! Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça”


domingo, 24 de março de 2013

Meia-noite em Paris


“Um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz”
Gertrude Stein

Filme realmente empolgante. A dica para assisti-lo veio de minha família, que conta com a experiência de realmente conhecer Paris, suas paisagens – e sentimentos que despertam.  Abaixo, as reflexões que tive enquanto o assistia.

Foi surpreendente como roteiro, mas mais ainda pelo fato de eu ter acabado de ler “o sol também se levanta” de Hemingway – livro em que o autor fala dos relacionamentos à época. Paris foi o centro do universo artístico no pós primeira guerra – e viu o surgimento de muito do melhor da cultura disponível atualmente. É justificada a aspiração do protagonista do filme, de participar das reuniões e vida social de tantos artistas fantásticos juntos ao mesmo tempo. A mistura entre americanos, franceses e ingleses, a descoberta da estética das touradas e sua intensidade – iniciativa de Gertrude Stein para com o grupo de artistas que frequentava sua casa - representada no filme pelo amigo toureiro de Hemingway (Belmonte Garcia), o vazio existencial de uma geração que preenchia seu tempo desfrutando as possibilidades do pós primeira guerra.

Para quem gosta da cidade-luz, fica garantido uma profusão de cenas lindas de seu cotidiano, mostrando não se tratar de uma cidade museu, mas de uma obra de arte a céu aberto, viva, em constante reconstrução – inspiradora. Destaque para a cena do início, que retrata a famosa “ponte japonesa” de Monet: http://www.walldesk.com.br/pdp/1024/04/04/Impressionismo/The-Japanese-Bridge,-Claude-Monet.jpg  - tão bonita hoje quanto no dia em que foi retratada. O deslumbramento por Paris é uma alegria gerada pelo despertar que temos ao perceber a vida em constante mutação – aperfeiçoando-se a cada ciclo -  “moveable feast”, como definido por Hemingway ao citar esta cidade especial.

De alguma forma, Paris é arte – e sensibiliza tanto quanto esta: nos faz olhar para nuances até então invisíveis. Isto aparece no filme, no diálogo de “Gertrude Stein” para o protagonista:

“ - Todos temem a morte e questionam seu lugar no universo. O trabalho do artista é não sucumbir ao desespero, mas encontrar um antidoto para o vazio da existência”

Apresentando os anos 20 em oposição a nossa época atual, Allen mostra por seus personagens que o trabalho das artes nunca foi tão fundamental. Em todo o tempo, o artista luta contra a banalização da existência humana – mas no mundo atual – vazio de significados e que vive em torno de produção/marketing/consumo, esta tarefa é ainda mais nobre e complicada.
Woody Allen revisita neste filme um tema presente em outros roteiros seus, mas faz isto com criatividade e cuidado. Ao mesmo tempo em que o artista (ele incluso) busca um olhar diferenciado do mundo, não pode se considerar diferente de seu público. Se o fizer, viverá em outro mundo, e suas descobertas ficariam distantes dos demais – não fariam mais sentido. O artista precisa de interlocutores, ou então sente-se sozinho e angustiado. A maioria das vezes, transita entre uma condição e outra – mas se considerar-se um passo à frente dos demais – passa a ser pedante. Um artista que se torna um crítico, que busca diferenciação dos demais por opiniões atípicas com doses medidas de polêmica -  é tão adormecido quanto àqueles que tentou despertar no início de sua jornada.

Sempre que pode, Woody Allen coloca em seus filmes as sutis – mas fundamentais – distâncias entre casais, que mostram a hipocrisia de alguns relacionamentos. Para muitos, em especial o público feminino, ter um relacionamento é um endosso a sua visão de mundo. Os enlaces tornam-se troféus representando sucesso social. Freudiano incontestável, mostra a todo instante a libido se movimentando – construindo e reconstruindo a teia de relacionamentos conforme ocorrem sintonias entre os diferentes personagens. O cineasta é muito bom nisso.

Allen dá um jeito de nos colocar identificados com um de seus personagens,  que conforme vai evoluindo com as experiências artísticas vai desprendendo-se de sua vida e relacionamentos passados, para lançar-se a algo novo e mais honesto.  Para o protagonista do filme, seu “insight” foi descobrir que a arte é fundamental em qualquer época, e que a ânsia que o artista sente por compartilhar suas ideias é sempre suprida pela fantasia de poder compartilhar com seus antecessores de outras épocas. Em ultima analise, esta “liga” de releituras e revisitas às artes passadas faz com que não se tenha que reinventar a roda. O Ser humano não é diferente por viver num mundo diferente. Nossas necessidades emocionais são parecidas com as dos autores dos anos 20, ou da Belle époque, ou do renascimento. Isto fica claro na atualidade do diálogo da personagem dos anos 20:

“(Gil) – Mas senti, por um minuto enquanto beijava você, que eu era imortal.
 (Adriana)- Mas você parece tão triste!
 (Gil)- Porque a vida é muito misteriosa.
(Adriana) - É a época em que vivemos. Tudo acontece tão rápido e a vida é tão ruidosa e complicada”

O esforço do artista é antes de tudo seu trabalho. Seu trabalho é, por sua vez, seu colocar-se no mundo – e só nos dedicamos a este desafio porque precisamos de relacionamentos com outros seres humanos. A tarefa do artista neste ponto é como a de qualquer um: uma busca por identificação. Ao retomar a validade de suas ações, é inevitável que o protagonista se desprenda de relacionamentos superficiais, e que se sinta mais autoconfiante. Sua autoestima é renovada ao perceber a importância de seu trabalho como artista da época a que pertence – e o resultado generosamente oferecido pelo roteirista é finalizar o filme com um despertar de novas possibilidades.