quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mais um Victor Hugo Cinematográfico


Os Trabalhadores do Mar – Victor Hugo

Ao começar a leitura do terceiro Victor Hugo de minha prateleira, logo de início já recebi um presente. A coleção da Abril Cultural – “Os imortais da Literatura Universal” inicia esta edição e Julho de 1971:

- Tradução de Machado de Assis
“O texto de “Os trabalhadores do mar” que aqui publicamos é o da segunda edição da tradução de Machado de Assis, feita em 3 volumes, pela Tipografia Perseverança, RJ, em 1866, e citada no “Dicionário Bibliográfico Brasileiro” de Augusto V. Alves Sacramento Blake (vol.IV, Pag 197, ed Imprensa Nacional, Rio, 1898). Atualizamos apenas a ortografia e permitimo-nos emendar alguns evidentes erros tipográficos. Conseguimos esse texto, hoje em dia bastante raro, do Dr Plínio Doyle, que mui gentilmente nos permitiu reproduzir, em xerox, um exemplar de 1866 de sua propriedade.”

Não tenho conhecimento técnico sobre tradução. Sou apenas um apaixonado por livros. Acho que a tradução é quase uma adoção – ou co-autoria. A obra do mestre Victor Hugo, traduzida por outro Mestre, só podia encantar! Eu me lembro de ter comentado em uma resenha recente, que estranhava a antiguidade da linguagem de uma tradução. Me questiono quando uma tradução deve ser atualizada – e agora mais especialmente – quando ela NÃO deve ser alterada.

Victor Hugo continua bastante “cinematográfico” para mim. A própria escolha da “gente do mar” para contar suas histórias já dá mais profundidade  à obra. As viagens ao mar permitiam literalmente ir além do horizonte, conhecendo o mundo, relativizando suas verdades culturais. Que caldo mais nobre para o fortalecimento da alma humana?

Seu desenrolar das histórias em diferentes núcleos de personagens que se cruzam (que comentem em resenhas anteriores), faz com que se crie uma espécie de cumplicidade com o leitor. Assim, ele pode num capítulo descrever um vulto, com uma determinada roupa, que desempenha determinadas atividades, sem nunca citar qual o personagem, mas com a certeza de que sabemos qual é , e de que continuamos no “fio” da história. O ambiente inteiro é descrito, sem que esta exposição seja enfadonha. Você conseguirá sentir a brisa, o cheiro de mar, a rispidez do solo, o ferimento numa pedra pontiaguda, a dificuldade de uma peripécia.

Em alguns trechos, o emocional vai crescendo – e você intui o que vai acontecer. Ainda que previsível, uma alegria te invade quando suas expectativas se confirmam, qual uma criança que ganha o que tinha pedido. Te faz correr pelas páginas, perder um pouco do sono noturno, atrasar o próximo compromisso, protelar uma tarefa importante – continuar colado no livro.

Seu ritmo é ágil, e não há trechos áridos, como em “O corcunda..” ou “Os miseráveis..”. Nada é excessivo – tudo compõe os personagens e cenários. Agora com 3 livros dele no currículo, reconheço seus personagens masculinos como sobreviventes fortes, unidirecionais – ou muito bons, ou muito maus. Não mudam de ideia, mas se entregam ao amor romântico. Já os femininos são dominados pelas emoções. Passam por dificuldades, mas não renunciam a seus sentimentos e vontades – desapercebidas de seu poder.

Para quem quer conhecer o autor, fica a dica – mas eu iniciaria por “Os Miseráveis”.

Trechos selecionados:

“Havia nele a ligação do alucinado e do iluminado. A alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao espírito do Homem. (...) Resulta daí um mistoerioso estremecer de ideias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o profeta...”

“Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.”

“Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra...”

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Viagens de Gulliver - Algumas Viagens na Maionese


Minha intenção ao escolher este livro, foi a de continuar preenchendo minhas lacunas na leitura de clássicos mundiais. Esta obra de Jonathan Swift está certamente listada entre os mais lidos, mas confesso que sua leitura foi um pouco cansativa para mim. Eu vinha de uma sequencia de literatura mais adulta, e senti falta das frases mais pesadas e reflexivas. O livro todo é cheio de nomes que achei infantis, como “Glubdubdrib” ou “Luggnagg”.

Foi traduzido como “Viagens de Gulliver”, mas seu nome de lançamento foi “Travels into Several Remote Nations of the World, in Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of several Ships” (trad: Viagens para várias nações remotas do mundo, em quarto partes, Por Lemuel Gulliver, primeiro um cirurgião, e então o capitão de vários navios”). Antes de ler o livro, todas as vezes em que olhava para ele na prateleira lembrava de duas coisas: o antigo desenho “As aventuras de Gulliver” (tem aqui: http://youtu.be/YVFq2e0sCeo ) que eu assistia quando criança, e as cenas mais adultas de “Laranja Mecânica”, em que Alex usava a palavra Gulliver, como gíria (“Mum, I can't go to school today, my gulliver hurts” e “Yesterday we attacked this old man in the ally, he was being obnoxious, we hit got him right in the Gulliver”).

É possível que ele tenha feito alusão aos países reais e suas relações ao descrever suas viagens. No entanto, isto é bastante sutil, e não parece ser mais importante do que o entretenimento e histórias fantásticas. Mas explica:

“Isso talvez pareça ao leitor uma história antes ocorrida na Europa ou na Inglaterra, do que em país tão remoto. Digne-se, porém, considerar que os caprichos femininos não são limitados por nenhum clima ou nação, e são muito mais uniformes do que podemos supor.”

E dá lampejos de crítica social:

“As vezes, a briga entre dois príncipes é para decidir qual deles desapossará um terceiro dos seus domínios, aos quais nenhum tem direito algum; ás vezes, um príncipe briga com outro porque tem medo que o outro brigue com ele; as vezes, inicia-se uma guerra porque o inimigo é demasiado forte; outras, porque é demasiado fraco; as vezes, os nossos vizinhos querem as coisas que temos, ou têm as coisas que queremos, e ambos lutamos até que eles nos tomem as nossas, ou nos dêem as suas.”

Causa alguma emoção no início da leitura, uma vez que todos nós já ouvimos falar da viagem a Lilipute. A cena dele sendo preso por pequenos homenzinhos numa praia, com estacas e cordas, é uma das mais frequentemente mencionadas. O livro tem várias adaptações: cinema, música, versões ilustradas, teatro, quadro, etc. - mas não entendi por que todos se concentram na história da visita a Lilipute, ignorando os outros países visitados pelo personagem. Gulliver visita o país das pessoas pequenas, mas também visita outro de gigantes, uma ilha voadora, um país de cientistas, um de necromantes, e um país governado por cavalos – entre outras descrições breves de viagens a países conhecidos (Japão, Holanda...).

A cada contato com uma cultura nova, absorvia-lhes os idiomas e descrevia seus hábitos, procurando contribuir com experiências de viagens anteriores. Transparece na narrativa a visão da Europa, e em especial do Reino Unido, como o centro da civilização ou ao menos sua referência maior. Ainda assim, ele tenta reconhecer e mostrar como somos afetados por nossos hábitos e conceitos culturais ao julgar outros povos. A cada retorno à civilização, o personagem mostra estranhamento com nossos hábitos – e como os pequenos hábitos que assimilou, como sotaques, padrões de alimentação ou vestimenta, também geram comentários e observações desconfiadas. Talvez este sentimento esteja se tornando estranho no mundo globalizado, mas dá pra imaginar como era na época das navegações e descobrimentos.

Descreve um tempo antigo, em que as viagens e conhecimentos práticos do personagem causavam distinção entre os demais. Ele era cirurgião (sempre uma ocupação importante), sabia de navegação, idiomas, e tinha interesse especial pela cultura greco-romana. Sabia construir um barco, uma casa, suas próprias roupas e comidas. Trançar uma corda, improvisar fogo, caçar, etc. A todo o tempo, tenta transparecer esses conhecimentos e o domínio da linguagem técnica correspondente, como no trecho:

“Estava o navio em alto mar, de sorte que julgamos preferível correr com o tempo a capear, ou navegar em árvore seca. Rizamos o traquete, largamo-lo e caçamos as escotas; o leme estava bem a barlavento. Houve-se a nave bravamente. Amarramos a carregadeira do traquete; mas, estando a vela rasgada, arriamos a vêrga e, depois de pô-la dentro do navio, desatamo-la de tudo o que a prendia. Rugia a borrasca, violentíssima; o mar se agitava, estranho e perigoso.”

Não foi um dos meus preferidos, mas claro que vale a leitura.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

As dores do escritor


Resenha: Retrato do Artista quando Jovem


Sabe aqueles livros em que o autor consegue representar tão fidedignamente um personagem, que te transporta para dentro da cabeça dele? Joyce faz isto. Te transporta para a cabeça de um menino. 

Valorizo isto, pois sei o quanto é difícil. Não se trata apenas de contar uma história que envolva uma criança, mas reproduzir sua visão particular de mundo. Tem cuidados extremos, como uma percepção confusa das discussões adultas, uma vaga percepção de futuro, uma hipervalorização das regras impostas na escola, e a relação com figuras de autoridade. É tão fidedigno que sugere ser lembrança do autor, numa corajosa exposição. Está ali o inicio de sua personalidade – em vários pontos comuns à de cada um de nós.

Mostra nosso estranhamento com as regras do mundo, à medida em que o fazemos crescer em nossa criança. Um processo de “des-ilusão” – ainda assim amargo – que dá ainda mais peso para o conjunto de mudanças no corpo e nas relações com o mundo. Toda a criança passa por isto: esta construção da ilusão de uma identidade exclusiva (e ainda por cima nos achamos sempre mais espertos que os outros).

Com este artifício delicioso, coloca no cenário o que era ser uma criança na Irlanda daquele tempo. Um mundo mais adulto, menos concessivo do que o atual mundo infantil. Um mundo de um catolicismo mais amedrontador/punitivo do que aqui no Brasil, em que os instintos de um jovem em crescimento se debatem com a culpa incutida por padres e professores.

Da criança para o adolescente, e agora o ambiente é mais complicado. As angústias em relação ao futuro,  a cobrança em momentos de decisão que definirão muito do que será sua vida, a influência dos amigos e dos mestres. Tudo isto sem apelar para uma super-visão. Tudo dentro do horizonte de percepção do próprio Stephen Dedalus (personagem principal).

Por fim, vale o comentário de que os adolescentes retratados possuem uma cultura geral muito maior do que a nossa. Seria a solidez da educação? Sobram frases em latim e discussões complexas sobre religião e estética – bem interessante, por sinal.

Frases selecionadas:

“Da má semente da ambição todos os outros pecados mortais tinham saltado: orgulho de si próprio e desprezo pelos outros; avareza em guardar dinheiro para a compra de prazeres ilícitos; inveja daqueles cujos vícios não podia atingir; caluniosas murmurações contra os piedosos; voracidade em sentir os alimentos; a estúpida raiva em que ardia e nomeio da qual examinava o seu tédio; o pântano de espiritual e corporal indolência dentro do qual todo o seu ser estava atolado.”

“A narrativa tampouco é meramente pessoal. A personalidade do artista passa para a narração mesma, enchendo, enchendo de fora para dentro as pessoas e a ação como um mar vital. (...) A personalidade do artista, no começo um grito, ou uma cadência, ou uma maneira, e depois um fluido e uma radiante narrativa, acaba finalmente se clarificando fora da existência, despersonalizando-se, por assim dizer”

“O seu espirito, esvaziado de teoria e de coragem, ia tombando numa paz desinteressada”

“A sentença mais profunda até hoje escrita – disse Temple, com entusiasmo – é esta sentença, no fim da zoologia: A reprodução é o começo da morte.”

“Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me  por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.”

“Sê bem-vinda, ó vida! Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça”


domingo, 24 de março de 2013

Meia-noite em Paris


“Um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz”
Gertrude Stein

Filme realmente empolgante. A dica para assisti-lo veio de minha família, que conta com a experiência de realmente conhecer Paris, suas paisagens – e sentimentos que despertam.  Abaixo, as reflexões que tive enquanto o assistia.

Foi surpreendente como roteiro, mas mais ainda pelo fato de eu ter acabado de ler “o sol também se levanta” de Hemingway – livro em que o autor fala dos relacionamentos à época. Paris foi o centro do universo artístico no pós primeira guerra – e viu o surgimento de muito do melhor da cultura disponível atualmente. É justificada a aspiração do protagonista do filme, de participar das reuniões e vida social de tantos artistas fantásticos juntos ao mesmo tempo. A mistura entre americanos, franceses e ingleses, a descoberta da estética das touradas e sua intensidade – iniciativa de Gertrude Stein para com o grupo de artistas que frequentava sua casa - representada no filme pelo amigo toureiro de Hemingway (Belmonte Garcia), o vazio existencial de uma geração que preenchia seu tempo desfrutando as possibilidades do pós primeira guerra.

Para quem gosta da cidade-luz, fica garantido uma profusão de cenas lindas de seu cotidiano, mostrando não se tratar de uma cidade museu, mas de uma obra de arte a céu aberto, viva, em constante reconstrução – inspiradora. Destaque para a cena do início, que retrata a famosa “ponte japonesa” de Monet: http://www.walldesk.com.br/pdp/1024/04/04/Impressionismo/The-Japanese-Bridge,-Claude-Monet.jpg  - tão bonita hoje quanto no dia em que foi retratada. O deslumbramento por Paris é uma alegria gerada pelo despertar que temos ao perceber a vida em constante mutação – aperfeiçoando-se a cada ciclo -  “moveable feast”, como definido por Hemingway ao citar esta cidade especial.

De alguma forma, Paris é arte – e sensibiliza tanto quanto esta: nos faz olhar para nuances até então invisíveis. Isto aparece no filme, no diálogo de “Gertrude Stein” para o protagonista:

“ - Todos temem a morte e questionam seu lugar no universo. O trabalho do artista é não sucumbir ao desespero, mas encontrar um antidoto para o vazio da existência”

Apresentando os anos 20 em oposição a nossa época atual, Allen mostra por seus personagens que o trabalho das artes nunca foi tão fundamental. Em todo o tempo, o artista luta contra a banalização da existência humana – mas no mundo atual – vazio de significados e que vive em torno de produção/marketing/consumo, esta tarefa é ainda mais nobre e complicada.
Woody Allen revisita neste filme um tema presente em outros roteiros seus, mas faz isto com criatividade e cuidado. Ao mesmo tempo em que o artista (ele incluso) busca um olhar diferenciado do mundo, não pode se considerar diferente de seu público. Se o fizer, viverá em outro mundo, e suas descobertas ficariam distantes dos demais – não fariam mais sentido. O artista precisa de interlocutores, ou então sente-se sozinho e angustiado. A maioria das vezes, transita entre uma condição e outra – mas se considerar-se um passo à frente dos demais – passa a ser pedante. Um artista que se torna um crítico, que busca diferenciação dos demais por opiniões atípicas com doses medidas de polêmica -  é tão adormecido quanto àqueles que tentou despertar no início de sua jornada.

Sempre que pode, Woody Allen coloca em seus filmes as sutis – mas fundamentais – distâncias entre casais, que mostram a hipocrisia de alguns relacionamentos. Para muitos, em especial o público feminino, ter um relacionamento é um endosso a sua visão de mundo. Os enlaces tornam-se troféus representando sucesso social. Freudiano incontestável, mostra a todo instante a libido se movimentando – construindo e reconstruindo a teia de relacionamentos conforme ocorrem sintonias entre os diferentes personagens. O cineasta é muito bom nisso.

Allen dá um jeito de nos colocar identificados com um de seus personagens,  que conforme vai evoluindo com as experiências artísticas vai desprendendo-se de sua vida e relacionamentos passados, para lançar-se a algo novo e mais honesto.  Para o protagonista do filme, seu “insight” foi descobrir que a arte é fundamental em qualquer época, e que a ânsia que o artista sente por compartilhar suas ideias é sempre suprida pela fantasia de poder compartilhar com seus antecessores de outras épocas. Em ultima analise, esta “liga” de releituras e revisitas às artes passadas faz com que não se tenha que reinventar a roda. O Ser humano não é diferente por viver num mundo diferente. Nossas necessidades emocionais são parecidas com as dos autores dos anos 20, ou da Belle époque, ou do renascimento. Isto fica claro na atualidade do diálogo da personagem dos anos 20:

“(Gil) – Mas senti, por um minuto enquanto beijava você, que eu era imortal.
 (Adriana)- Mas você parece tão triste!
 (Gil)- Porque a vida é muito misteriosa.
(Adriana) - É a época em que vivemos. Tudo acontece tão rápido e a vida é tão ruidosa e complicada”

O esforço do artista é antes de tudo seu trabalho. Seu trabalho é, por sua vez, seu colocar-se no mundo – e só nos dedicamos a este desafio porque precisamos de relacionamentos com outros seres humanos. A tarefa do artista neste ponto é como a de qualquer um: uma busca por identificação. Ao retomar a validade de suas ações, é inevitável que o protagonista se desprenda de relacionamentos superficiais, e que se sinta mais autoconfiante. Sua autoestima é renovada ao perceber a importância de seu trabalho como artista da época a que pertence – e o resultado generosamente oferecido pelo roteirista é finalizar o filme com um despertar de novas possibilidades.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Romance Sensorial e Etílico de Hemingway


Mais um clássico para a lista - Ernest Hemingway, nobel de literatura, premio Pulitzer. Li uma versão ou o original de “O Velho e o Mar” na adolescência, mas não tenho quase lembrança – então peguei na prateleira este autor sem saber o que esperar.

A leitura de “O sol também se levanta” é um convite a continuar lendo mais obras do autor. Para quem espera uma novela cheia de acontecimentos, pode se frustrar. Ele não explora uma sequencia de fatos – mas trabalha com muita qualidade os personagens e suas experiências. Você acaba se vendo na pele dos mesmos, experimentando cada bebida, o calor de uma cidade, a tensão entre os amigos, a zonzeira da embriaguez, a delicia de um mergulho no mar.

É quase um “road novel” pois há vários deslocamentos do grupo de amigos, triângulos amorosos, bebidas. Mostra a vida de ricos europeus, sem preocupação alguma a não ser frequentar pontos turísticos, aproveitar a vida.

Interessante como essa vida de “sonho” para muitos gera tanto vazio no grupo. Em todo o livro, paira uma sensação de enfado com a vida, com certa inveja e perplexidade dos personagens principais por todos os que tocam seus caminhos  mas possuem propósitos ou necessidades que determinam suas ações. Me pareceram mimados, que podem comprar tudo, menos a satisfação de uma realização autentica o bastante para que eles próprios pudessem em seus critérios admirar.

P.S: Percebi a tradução um tanto antiga, ou inadequada, mas nada que prejudicasse o entendimento. No exemplo: “ – Essa conversa está muito cacête – disse Brett. – Por que não tomamos um pouco de champanha?”

Frases selecionadas:

“  - Bem, eu quero ir à América do Sul.
 - Escute, Robert, tanto faz um país como outro. Tenho experiência disso. Não podemos sair de dentro de nós mesmos. Não adianta.”

“E o feito que Paris inteira produzia em Robert Cohn. De onde teria Robert tirado essa incapacidade de gostar de Paris? De Mencken, possivelmente. Parece que Mencken detesta Paris e muitos jovens tiram de Mencken suas preferências e idiossincrasias.”

“Desejaria que Mike não tivesse tratado Cohn de maneira tão cruel. Mike, quando bebia, era mau; Brett sabia beber e Bill também. Cohn jamais se embriagava. Passado um certo limite, Mike tornava-se desagradável. Eu gostava de vê-lo magoar Cohn e, contudo, desejaria que não o fizesse, porque, em seguida, sentia repulsa de mim mesmo. E nisto consiste a moral: coisas que fazemos e das quais depois sentimos repulsa. Não, isso devia ser imoralidade, ponto de vista muito amplo. Quanta tolice me passa pela cabeça, à noite.”

“Saí, e fui para o meu quarto. Estendi-me na cama. A cama jogava como um navio. Sentei-me e olhei fixamente a parede, a fim de detê-la. Fora, na praça, a festa continuava. Isso me era indiferente. Mais tarde, Bill e Mike vieram buscar-me para almoçarmos juntos. Fingi que estava dormindo.”

“Entrei na água: estava fria. Quando chegou uma onda, mergulhei, nadei e voltei à superfície, sem sentir mais frio. Nadei até uma jangada, subi para ela e fiquei deitado nas tábuas quentes. Um rapaz e uma moça estavam na outra extremidade. A moça desprendera as alças de seu maiô, nas costas, e bronzeava-se ao sol. O rapaz, deitado de bruços, na jangada, falava-lhe. Ela ria ouvindo-o e apresentava ao sol as costas bronzeadas. Demorei na jangada, ao sol, até secar. Depois mergulhei várias vezes, experimentando diversas maneiras. Mergulhei profundamente, uma vez, nadei de olhos abertos, e tudo era sombrio e verde. A jangada formava uma mancha escura. Saí da água, junto dela, subi, mergulhei mais uma vez, demoradamente, e depois alcancei a praia a nado. Fiquei deitado na areia até secar, depois fui à cabina, tirei o maiô, banhei-me com água doce e me enxuguei.”

O Retrato de Oscar Wilde


Em minhas metas de leitura deste ano, preciso acrescentar alguns clássicos a meu currículo. Foi assim que peguei “O retrato de Dorian Gray” da prateleira – obra de Oscar Wilde.

Autor conhecido pelo homossexualismo numa época em que isso era um enorme tabu (acho as vezes que isto não foi superado) e pela vida de “dândi” que levou em Londres, Wilde deixa muito de sua própria vivência e entendimento do ser humano neste livro. A maioria de suas obras não foram romances, mas poesias e peças para teatro, pelo que soube. Ainda assim, faz jus ao título de “clássico da literatura”, pois é denso e bem escrito.

O primeiro contato com o livro deixa uma sensação de ritmo lento.  E então, com um fato surpreendente (que não cito aqui para não me tornar “spoiler”), o autor faz o ritmo lento tornar-se mais frenético, e o livro segue interessante até o final. No decorrer da história, podemos observar “na janela do trem” a vida na nata de uma sociedade rica, sem preocupações por sobrevivência, já anestesiada de suas culpas.

Um homoerotismo subjacente aparece nas relações de admiração e controle entre os personagens masculinos iniciais. A misoginia aparece no retrato das mulheres durante o livro – mas aparecem como crítica, não determinismo ou preconceito. São construídos cenários da sociedade fútil da época, mas que por ter ainda contar com educação forte na infância, sobra em criatividade para justificar sua inutilidade. Num estilo de vida em que tudo está garantido, os prazeres simples perdem em interesse, e é preciso drogas cada vez mais pesadas. É assim que as personagens trocam frases sarcásticas, polêmicas e desesperançosas.

O sarcasmo é uma cortina de fumaça para esconder problemas de autoestima. Nas frases inteligentes e na influência sutil de um personagem sobre o outro, aparece a genialidade do autor, mas também sua prisão e fragilidade. De forma semelhante, o caçador tem a vida da caça na ponta de seus dedos no gatilho, mas é escravo da caça por precisar da adrenalina desse momento para justificar sua existência.

Vale muito a leitura.

Frases selecionadas:

“  - Meu amigo, não falo completamente a sério. Mas não posso deixar de detestar meus parentes. Suponho que isto se deve a que nenhum de nós pode suportar a vista de outros que tenham os seus mesmos defeitos. Estou completamente de acordo com a democracia inglesa, na sua cólera contra o que ela denomina os vícios das classes superiores. O povo acha que a embriaguez, a ignorância e a imoralidade devem ser propriedade sua e, se algum de nós incorre nesses defeitos é como se invadisse os seus domínios. Quando o pobre Southwark compareceu diante do Tribunal de Divórcios, a indignação desse povo foi magnífica. E, contudo, não acredito que a décima parte do proletariado viva corretamente.”

“Costuma-se dizer que a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só o medíocre não julga pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível... Sim, Sr. Gray, os deuses foram generosos para com o senhor. Mas o que os deuses dão, tomam logo em seguida. O senhor não tem senão uns poucos anos para viver verdadeiramente, perfeitamente, plenamente. Quando a sua juventude se desvanecer, a sua beleza ir-se-á com ela, e, então, descobrirá que nada ficou dos seus triunfos, ou terá de se conformar com esses êxitos insignificantes, que a lembrança do passado torna ainda mais amargos que derrotas.”

“ – Hum! Dize à tua tia Ágata, Harry, que não me incomode mais com as suas obras de caridade. Estou farto delas. Ora! A boa criatura pensa que não tenho mais nada a fazer, senão assinar cheques para as suas tolas manias.
 - Muito bem, tio George, dir-lho-ei, mas não surtirá nenhum efeito. Os filantropos perderam toda a noção de humanidade. É a sua mais notável característica.”

“Meu caro amigo, nenhuma mulher é gênio. As mulheres são um sexo decorativo. Não têm nunca nada a dizer, mas dizem-no de um modo encantador. As mulheres representam o triunfo da matéria sobre a inteligência, exatamente como os homens representam o triunfo da inteligência sobre os costumes.”

“Verdade é que todo aquele que observava a vida, em seu estanho crisol de dor e prazer, não podia usar máscara de vidro no rosto, nem impedir que os vapores sulfurosos lhe perturbassem o cérebro e turvassem a imaginação com monstruosas fantasias e sonhos informes. Havia venenos tão sutis que, para conhecer-lhes as propriedades, fazia-se mister experimentar seus efeitos em si mesmo. E enfermidades tão estranhas que era preciso tê-las sofrido, para compreender-lhes a natureza.”

“A sociedade, a sociedade civilizada pelo menos, nunca se acha disposta a acreditar em alguma coisa desabonadora em relação àqueles que são simultaneamente ricos e sedutores. Considera instintivamente as maneiras mais importantes do que a moral e, em sua opinião, a mais alta respeitabilidade vale muito menos do que o fato de se possuir um bom cozinheiro.”

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Última Tentação de Cristo


Escrever é Espiritual. 

Este foi meu primeiro contato com o autor de “Zorba – O Grego” e de “O Cristo Recrucificado”. O que me atraiu para o livro foi sua relevância para a literatura mundial, mas desconfiava que a polêmica religiosa pudesse ter sido a única razão de seu sucesso mundial. Como sabemos, basta falar de religião para detonar uma incrível polêmica. Dependendo do tema, o povo sai se matando – o que classifico como trágico, mas também ridículo.

Como não sou religioso, não passou por mim nenhum pudor maior ao conhecer esta releitura da vida de Jesus. Ainda assim, talvez haja um prazer maior na leitura, se você já teve algum contato com algum dos evangelhos, pois vai reconhecer momentos importantes, como o “sermão da montanha”, alguns milagres, a luta de Jesus no templo, entre outras. O livro não faz propaganda religiosa, mas consegue ser espiritual ao contemplar a vida, ao humanizar a personalidade de Jesus. Faz sem medo o saudável exercício de questionamento das histórias do evangelho, e também as diferentes opiniões que se pode ter sobre o que se convenciona Bem e Mal:

“Alguém veio aqui enquanto eu dormia – disse o rapaz baixinho, como se temesse que o visitante ainda estivesse por ali e pudesse ouvi-lo – Veio alguém... Sem dúvida foi Deus, Deus..., ou teria sido o diabo. Quem consegue distinguir entre os dois? Eles trocam de cara. Deus ás vezes é só escuridão; e o diabo, só luz. Por isso, o espirito do homem fica desorientado.”

 Mais do que isso – e é preciso destacar nesta resenha – O LIVRO É MUITO BEM ESCRITO. Suas 500 páginas passam rápido. Alguns trechos são realmente lapidados – primorosos - e tudo tem um ritmo bom, não há partes áridas. Kazantzakis mostra o constante debater de Jesus com seu destino, revelado a ele por Deus (ou seus representantes – anjos e outras figuras, que se alternam ao longo da trama). Será que ele, ou Judas Iscariotes, tiveram livre-arbítrio? Será preciso procurar Deus fora? Será imprescindível uma vida de abnegação e pobreza? Ele passa ao largo da questão política da época (romanos x Judeus x outros povos), mas usa esse cenário com sabedoria – e é tocante nos momentos em que contempla a vida comum e sua beleza intrínseca. Suas descrições do deserto fazem sentir sede. Ao ler sobre a comida, sentimos fome. Sobre as mulheres, sentimos desejo.

Frases Selecionadas:

“Ali fora ainda estava claro: a luz do verão afastava-se lentamente da terra como se não quisesse ir embora. Homens e bois voltavam de seu trabalho nos campos. Donas de casa acendiam o fogo para preparar a refeição vespertina; a fragrância de lenha a queimar invadia o ar da tarde. Maria fiava, e seu pensamento volteava para um lado e para o outro, acompanhando o movimento do fuso.”

“O filho de Maria estava tranquilo. Sentou-se na raiz da antiquíssima oliveira e pôs-se a comer. Esse pão era tão bom! E a água tão refrescante! E como eram deliciosas as duas azeitonas que a velha lhe deu para acompanhar o pão! Os caroços eram finos, e elas eram gordas e polpudas como maças. Ele mastigava, sereno, e comia sentindo que seu corpo e sua alma eram agora um só, que os dois estavam recebendo o pão, as azeitonas e a água através de uma só boca, e que os dois com isso se alegravam e se nutriam.”

“ – Ora, pobre coitado, você não sabe que não se encontra Deus os mosteiros, mas sim nas casas dos homens? Onde quer que se vejam marido e mulher, ali está Deus. Onde quer que haja crianças, pequenas preocupações, cozinha, brigas e reconciliações, é ali também que Deus está. Não dê ouvidos a esses eunucos. As uvas estão verdes! Estão verdes! O Deus de que lhe falo, o Deus doméstico, não o monástico, é esse o verdadeiro Deus. É a ele que você deve adorar. Deixe o outro para aqueles idiotas preguiçosos e estéreis no deserto!”

“Madalena estava deitada de costas, inteiramente nua, encharcada de suor, seu cabelo negro como a noite espalhado no travesseiro e os braços cruzados atrás da cabeça. Seu rosto estava virado para  a parede, e ela bocejava. O embate com homens nessa cama desde o amanhecer a deixara exausta. Seu cabelo, suas unhas, cada centímetro de se corpo recendiam aos cheiros de todas as nações, e seus braços, seu pescoço e seus seios estavam cobertos de mordidas.”

“ – Ele é um de nossos filhos. É por isso que as Escrituras chamam-no de Filho do Homem! Por que vocês pensam que milhares de israelitas, homens e mulheres, copularam geração após geração? Para esfregarem seus quadris e excitarem as virilhas? Não! Todos esses milhares e milhares de beijos eram necessários para que se produzisse o Messias.”

“ – Não, não quero me calar! – prosseguiu o rapaz, com os nervos em frangalhos – Agora que já comecei, é tarde demais. Não vou calar a boca. Sou um mentiroso, hipócrita. Tenho medo da minha própria sombra. Nunca digo a verdade, não tenho coragem. Quando vejo uma mulher passar, enrubesço e abaixo a cabeça, mas meus olhos enchem-se de desejo. Nunca ergui minha mão para roubar, açoitar ou matar. Não por não ter vontade, mas por ter medo. Deus, mas tenho medo. Medo! Medo! Se você olhar dentro de mim, verá o Medo, um coelhinho trêmulo, alojado em minhas entranhas. Só o medo e nada mais. Ele é meu pai, minha mãe e meu Deus.”

“Como podem, então, Onipotente, olhar diretamente para o Senhor? Tenha piedade, Senhor; modere sua força, diminua seu esplendor, para que eu, pobre e aflito, possa vê-lo! Então escute, meu velho, Deus transformou-se num pedaço de pão, numa caneca de água fresca, numa túnica aconchegante, numa cabana e, na frente da cabana, numa mulher amamentando uma criança.”

“Gemendo, Maria Madalena abraçou o homem de forma a manter seu corpo grudado ao dele.
 – Nenhum homem jamais me beijou. Nunca senti uma barba nos meus lábios e no meu rosto; nem os joelhos de um homem entre os meus. Hoje estou nascendo... Você  está chorando, meu filho?
 - Amada esposa, eu nunca soube que o mundo era tão lindo nem que a carne era tão sagrada. Ela também é filha de Deus, a graciosa irmã do espirito...Eu nunca imaginei que os prazeres do corpo não fossem pecaminosos.
 - Por que você se decidiu a conquistar os céus, a suspirar à procura da milagrosa água da vida eterna? Sou eu essa água. Você debruçou-se, bebeu e encontrou a paz...”

“Passaram-se os dias, os meses, os anos. Na casa de mestre Lázaro, multiplicavam-se os filhos e filhas, e Marta e Maria competiam para ver quem daria à luz mais crianças. O marido lutava. Ás vezes na carpintaria, com o pinho, o carvalho e o cipreste, derrubando a madeira e forçando-a a assumir a forma de utensílios para os homens. Às vezes no campo, com ventos, toupeiras e urtigas. À noite ele voltava exausto para se sentar no quintal, e suas mulheres vinham lavar-lhe os pés e as pernas, acendiam a lareira, serviam a mesa e abriam os braços para ele. E da mesma forma que ele trabalhava a madeira, liberando os berços que estavam presos a ela, e trabalhava a terra, liberando as uvas e as espigas do grão que estavam dentro dela; da mesma forma ele trabalhava as mulheres e de seu ventre liberava Deus.”

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

É preciso ler mais para saber

A escolha de conhecer Nietzsche iniciando por “Crepúsculo dos Ídolos” foi apenas em função de uma liquidação de “pocket books”. Não é um mal começo, mas fica claro desde o início, que é preciso alguma ordem, ou orientação para compreender o trabalho do filósofo. Esta resenha é mais um lembrete para minhas emoções durante a leitura, do que uma tentativa de (impossível) síntese representativa das idéias do filósofo.

Ficou para mim, nesta leitura, uma vontade de saber mais, em especial de “Além do bem e do mal” ou “assim falou Zaratustra”. “Crepúsculo dos Idolos” é o ultimo livro que o autor viu ser publicado, antes de seu colapso nervoso – como me informou o prefácio. Isto que impacta mais na leitura deste texto inteligente. Ele é denso! E bem escrito! Tem horas que navegamos fácil por suas frases, concordando com o autor e sentindo seu ímpeto e indignação. 

Indignado! Aliás, esta é uma diferença marcante em relação a outros filósofos. Quando um filósofo escreve sobre algo, é porque quer compartilhar suas conclusões. Está, então, numa espécie de trégua com suas dúvidas, pois encontrou algum sistema que permitiu uma resposta enriquecedora e aceitável. O livro de Nietzsche, não tem esta tranquilidade. Ele combate as próprias certezas com raiva e persistência, como se estas fossem inimigas a tentar dissuadi-lo de sua busca.

Se ficou louco ao final da vida, bem pode ser dessa intranquilidade. Sem solo firme para qualquer verdade, sempre escolhemos algum dogma, pessoal ou coletivo, para apaziguar nossa inquietação, e construir a partir desta arbitrariedade. Nietzsche foi corajoso ao negar tal artifício. Quer ser inconformado, jovem de espírito – e talvez tenha submetido seu corpo e mente a algo mais do que podiam conter.

No caminho desta luta interna, deixa cadáveres pela estrada, entre eles o cristianismo, a moral, a tentativa de controle de nossas vontades animais por qualquer mecanismo de Estado ou ideologia controladora. Acredita num mergulho nas profundidades de nossa humanidade (em seu sentido mais incontrolável), e espera que a ordem social possa surgir desta consciência, não mais como hipocrisia, mas como escolha – e se assim fosse, sem todas as neuroses atuais.

Foi difícil selecionar poucas frases. Segue abaixo as que mais impacto causaram:

“O que as “escolas superiores” da Alemanha efetivamente alcançam é um adestramento brutal que, com o menor dispêndio possível de tempo, visa tornar um grande número de jovens aproveitável, explorável, para o serviço do Estado. “Educação superior” e grande número – coisas que se contradizem de antemão. Toda educação superior pertence apenas à exceção: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão elevado.”

“ Só se é fértil ao preço de ser rico em oposições; só se permanece jovem se a alma não se espreguiça, não anseia pela paz... Nada se tornou mais estranho para nós do que aquele anelo de outrora, o de “paz da alma”, o anelo cristão; nada nos causa menos inveja do que a vaca moral e a felicidade gorda da consciência tranquila. Renuncia-se à grande vida quando se renuncia à guerra...”

“Toda a psicologia antiga, a psicologia da vontade, pressupõe que seus autores, os sacerdotes à testa das antigas comunidades, queriam se arrogar o direito de inflingir punições – ou queriam arrogar esse direito a Deus...Os homens foram imaginados “livres” para que pudessem ser condenados, punidos – para que pudessem se tornar culpados: em consequência, toda ação teve de ser imaginada como querida e sua origem como presente na consciência (o que transformou a mais radical falsificação in psychologicis em princípio da própria psicologia...”

“O direito à estupidez. – O trabalhador cansado e que respira lentamente, de olhar bonachão, que deixa as coisas andar como andam: essa figura típica que agora, na época do trabalho (e do “reich”!), encontramos em todas as classes da sociedade, reivindica hoje precisamente a arte, incluindo o livro, sobretudo o jornal – e mais ainda a bela natureza, a Itália... O homem do entardecer, com os impulsos selvagens adormecidos de que fala Fausto, necessita do veraneio, do banho de mar, das geleiras de Bayreuth...Em tais épocas, a arte tem direito à pura tolice – como uma espécie de férias para o espirito, o engenho e o ânimo. Wagner entendeu isso. A pura tolice restaura...”

“Quando o anarquista, na condição de porta-voz das camadas declinantes da sociedade, exige “direito”, “justiça” e “direitos iguais” com uma bela indignação, apenas se encontra sob a pressão de sua incultura, que não consegue compreender por que realmente ele sofre – do que é pobre, de vida... Ele é dominado por um impulso causal: alguém deve ser culpado por ele estar mal... Só a “bela indignação” já lhe faz bem, vociferar é um prazer para todos os pobres-diabos – isso dá uma pequena embriaguez de poder. Já basta a queixa, o queixar-se, para dar à vida um encanto pelo qual se suporta vive-la: há uma dose sutil de vingança em toda a queixa: a pessoa censura aqueles que são diferentes, como se isso fosse uma injustiça, um privilégio ilícito, por sua situação ruim, ‘as vezes até por sua ruindade. “Se sou canaille, também deverias sê-lo”: é com base nessa lógica que se faz revolução. – O queixar-se não vale nada em caso algum: ele provém da fraqueza. Atribuir sua situação ruim a outros ou a si mesmo – a primeira atitude é própria do socialista, a última, do cristão, por exemplo – não faz qualquer verdadeira diferença. O que há em comum, digamos o que há de indigno nisso, e que alguém deva ser culpado por sofrermos – em resumo, que o sofredor prescreva para seu sofrimento o mel da vingança.”

“Mas quem sabe, afinal, se desejo mesmo ser lido hoje? – Criar coisas nas quais o tempo gaste seus dentes em vão; esforçar-se por alcançar uma pequena eternidade na forma, na substância – nunca fui modesto o bastante para pedir menos de mim. O aforismo, a sentença, nos quais sou o primeiro s ser um mestre entre os alemães, são as formas da “eternidade”; minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num livro – o que qualquer outro não diz num livro...”

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Receita para um romance de Jane Austen


- Você vai precisar de uma família com filhas mulheres, sem dotes em dinheiro suficientes para manter seu atual nível de vida;
- A personagem da mãe deve ser emocional, quase ingênua na percepção dos relacionamentos à sua volta. Deve ser pura no interesse em que as filhas sejam felizes;
- O pai deve ser um exemplo de retidão e consciência da condição frágil em que as mulheres estão no mundo. Se for vivo, afeiçoa-se à filha mais consciente, mantendo com ela uma comunicação que as outras não alcançam;
- dentre as filhas, uma delas se interessará por um cavalheiro que provará ao longo do livro não ter caráter. Normalmente isto não quer dizer necessariamente que ele não a ama, mas que prefere garantir sua saúde financeira casando com um partido melhor;
- As irmãs mais novas se comportarão de maneira inadvertida ou não esperada para damas de sua idade. São ingênuas e entregues às emoções;
- Uma das filhas (a “Jane Austen” da família) valorizará a leitura e terá consciência acima de sua idade, com inteligência sagaz facilmente perceptível por outros no mesmo nível. Esta terá o maior prêmio no final – o amor verdadeiro de um Homem de valor.
- Parentes assumirão posições indiscretas, insinuando romances nos encontros sociais, ou tentando descobrir as preferências das filhas. Em momentos críticos, um ou mais deles terá importante papel para resgatar uma das irmãs que fica doente (e é sempre durante a gripe que elas conseguem sua paixão);

Ok, ok... começando assim minha resenha de “Orgulho e Preconceito”, novamente corro o risco de causar a ira dos fãs da autora. Soma-se a isto minha afirmação de que gostei mais do filme do que do livro – em minha resenha de “Razão e Sensibilidade”.

Como reparo, afirmo desde já que também reconheço a autora como uma mulher à frente de seu tempo, e que fez muito mais do que outras na época, denotando inteligência. O que não posso fazer é fechar os olhos para a previsibilidade dos livros, e o ritmo cansativo de seus diálogos.

Tinha a hipótese de que esses diálogos morosos eram causados pela tradução para o português. De fato, ao ler o “Orgulho e Preconceito” em inglês, reparei que ficam mais apropriados, embora em muitos momentos (especialmente nos bailes), pedaços inteiros do livro são desnecessários. Parecem existir para que a autora possa tripudiar um pouco da volatilidade de humor e da futilidade das mulheres não inteligentes na sociedade da época – como um nerd faz questão de ressaltar sua inteligência frente aos fúteis que lhes praticam “bullying”.

Minha convicção após este segundo livro é que mais do que o estilo da autora, o que apaixona tantos fãs são os velhos motes românticos, que se ajustam tão bem à moral da época em que as histórias tomam corpo. É a crença naquela UMA PAIXÃO arrebatadora, que contra tudo e contra todos elevará em especial a moça para níveis inimagináveis de felicidade, sem nunca mais trazê-la de volta às misérias da vida comum – que arrebanha os aficcionados. 

Teria eu direito de tirar-lhes este gosto pelo amor romântico, que tanto aflige nossa biologia, mas que por séculos recebe tributos nas artes e literaturas? Não, não posso fazê-lo. Cada um vive suas emoções... enfim, cada um paga suas contas no campo emocional. Nunca faltarão fãs para esta autora. Deixo apenas, abaixo, a frase de F.Nietzsche, para reflexão:

"Todas as paixões têm uma época em que são apenas funestas, em que puxam suas vítimas para baixo com o peso da estupidez - e uma época posterior, muito posterior, em que se casam com o espírito, em que se "espiritualizam"."


Frases selecionadas:
“Vanity and pride are different things, though the words are often used synonymously. A person may be proud without being vain. Pride relates more to our opinion of ourselves, vanity to what we would have others think of us”

“To Mr Darcy it was welcome intelligence – Elizabeth had been at Netherfield long enough. She attracted him more than he liked – and Miss Bingley was uncivil to her, and more teasing than usual to himself. He wisely resolved to be particularly careful that no sign of admiration should now escape hum, nothing that could elevate her with the hope of influencing his felicity; sensible that if such an idea had been suggested, his behavior during the last day must have material weight in confirming or crushing it. Steady to his purpose, he scarcely spoke ten words to her through the whole of Saturday, and though they were at one time scientiously to his book, and would not even look at her.”

(de Mr Bennet para Elizabeth) “An unhappy alternative is before you Elizabeth. From this day you must be a stranger to one of your parents. – Your mother will never see you again if you do not marry Mr Collins, and I will never see you again if you do.”

(de Mr Bennet para Elizabeth) “Next to being married, a girl likes to be crossed in love a little now and then. It is something to think of, and gives her a sort of distinction among her companions. When is your turn to come? You will hardly bear to be long outdone by Jane. Now is your time.”

“Then, perceiving in Elizabeth no inclination of replying, she added ‘ Unhappy as the event must be for Lydia, we may draw from it this useful lesson; that loss of virtue in a female is irretreavable – that one false step involves her in endless ruin – that her reputation is no less brittle than it is beautiful, - and that she cannot be too much guarded in her behavior towards the undeserving of the other sex.”

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Resenha Skoob - A Ilustre Casa de Ramires


Já devo ter comentado isto em outra resenha, mas já há alguns anos tenho comigo a promessa de terminar cada livro que começo. Previne que eu abandone um livro antes que ele “engate” e fique bom.

Confesso que “A ilustre casa de Ramires” me tentou a quebrar a promessa. A leitura estava muito rebuscada no começo. Não tenho vocabulário para lê-lo sem visitas constantes aos verbetes de dicionário. A frase abaixo é emblemática nesse ponto:

“ ´Bofé!...Mentes pela gorja!... Pajem ,o meu murzelo!...´; e através de toda esta vernaculidade circulava uma suficiente turba de cavalariços com saios alvadios, beguinos sumidos na sombra das cógulas, ovençais sopesando fartas bolsas de couro, uchões espostejando nédios lombos de cerdo...”

Também achou difícil? Entendo que para a educação da época, isto talvez fosse mais viável, mas tornava o livro muito chato pra mim. Aos poucos, porém, o autor vai nos afeiçoando ao Gonçalo Ramires. Vamos gostando de seus jeitos nobres, mas verossímeis, suas covardias, suas atitudes generosas.

Talvez seja tudo parte do plano do autor, de relacionar seu personagem à Portugal. O antigo país podia ser assim, intelectual, valoroso, tradicional. Carrega ainda essas ideias, e sabemos que transmitiu muitas delas ao Brasil.

É claro que não passaram para nossa cultura apenas a generosidade, bom humor, nobreza. Transmitiram também a diferença marcante entre ricos e pobre, e um fisiologismo – claros nas relações de Gonçalo com a coisa pública. Enfim, de minha parte, reforço a admiração pela cultura portuguesa, que em seu balanço é mais boa que má.

Trechos selecionados:

“Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal-da-cruz, o fidalgo da torre adormeceu. Mas no quarto, eu se povoou de sombras começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra seu pobre estômago pontoadas de lança que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau-preto.”

“As duas manas Lousadas! Secas, escuras e garrulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas , as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa cidade não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeora a um canto, vulto a uma esquina, chapéu estrado na missa, bolo encomendado nas Matildes, que os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem – e que a sua solta língua, entre os dentes ralos ,não comentasse com malícia estridente!...”

“Agora, porém, durante três, quatro anos, os regeneradores não trepavam ao governo. E ele, ali, através desses anos, no buraco rural, jogando voltaretes sonolentos na assembleia da vila, fumando cigarros calaceiros nas varandas dos Cunhais, sem carreira, parado e mudo na vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inútil torre!”

“ – Pois a D. Ana é uma beleza! Vocês não imaginam!... Santo nome de Deus! Que ombros! Que braços! Que peito! E a brancura, a perfeição... De endoidecer! Ao princípio, como havia muita gente, e ela estava para um canto, acanhadota, não fez sensação. Mas depois lá a descobriram. (...)
 - Pois, por mim, o que posso afirmar é que a senhora D. Ana é uma mulher muito asseada, muito lavada...”

“ – Talvez seriam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a impensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?...A imaginação que o leva sempre a exagerar até a mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de rala, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
 - Quem?...
 - Portugal.”

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Resenha Skoob - O Príncipe

Os fins justificaram os meios

27/08/2012

Tinha uma cota de pocket books para resgatar com meus pontos de fidelidade. Dentre os títulos, escolhi “O príncipe” de Maquiavel, pela curiosidade de ler um autor que virou adjetivo (“maquiavélico”) e ao qual se atribui a frase: “Os fins justificam os meios”. Outra menção a este título foi feita por FHC em uma de suas entrevistas para uma revista semanal, numa interessante alusão a seu período no poder e ao de seu sucessor.

“O Príncipe” parece ser um dos primeiros, senão o primeiro tratado de ciência política. Nele, o autor se baseia em experiências que pode observar, sobre os principados de sua época, e traça com base em seus exemplos as regras gerais que garantiriam a manutenção do poder e a coesão do estado político. Teve a oportunidade de discutir estados mais democráticos em outro texto, mas neste descreve principados em suas mais variadas formas, por hereditariedade, conquistados belicamente, adquiridos em acordos, etc.

É de sua escrita realista, sem floreios nem respeito à ética religiosa que surgem seus críticos, impingindo a sua autoria a ideia de que os fins justificam os meios. Na verdade, os fins destes críticos, que eram os de desacreditar este autor, justificaram os meios difamatórios. Não é dele a frase emblemática, e também não vi a defesa destas ideias com quaisquer outras palavras, ao menos não em “O Príncipe”.

Num texto protocolar, ilustrado de exemplos, organizado em tópicos como uma revisão moderna, elenca uma série de ideias que, por sua generalidade, aplicam-se ao longo do tempo a toda manutenção de poder, não só de um estado, mas de qualquer poder. Me lembrou muito o “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, e foi sem surpresa que soube que ele próprio tem o seu livro homônimo.

Frases selecionadas:

“Porque os romanos fizeram, nesses casos, tudo aquilo que os príncipes sábios devem fazer, os quais não somente devem atentar para os conflitos presentes, mas também aos futuros, impedindo-os com toda a habilidade, já que, prevendo-se o amanhã, facilmente os conflitos podem ser remediados; contudo, esperando que a ti se apresentem, não haverá mais tempo para a cura, porque a doença tornou-se incurável. E ocorre com isso o que os médicos dizem acerca da tuberculose, que, no princípio da doença, é fácil de curar e difícil de reconhecer, mas no progresso do tempo, não tendo sido no princípio conhecida e medicada, torna-se fácil de reconhecer e difícil de curar.”

“Precisava que Ciro encontrasse os persas descontentes com o império dos medas, e os medas moles e efeminados devido a uma longa paz.”

“De onde é de se notar que, ao tomar um Estado, deve o seu ocupador pôr em curso todas aquelas ofensas que lhe são necessárias fazer; e fazê-las todas de uma vez, para não ter que renová-las a cada dia e poder, sem variações, manter a população e governar para beneficiá-la. Quem faz de outro modo, ou por timidez ou por mau conselho, sempre necessitará ter o cutelo na mão e não poderá manter os seus súditos, nem podendo os súditos, pelas sempre renovadas injúrias, sentirem-se mantidos pelo ocupador. Porque as injúrias devem ser feitas todas juntas, a fim de que, mão saboreando-as menos, ofendam menos: os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, de modo que sejam bem saboreados.”
“Deve, portanto, um príncipe não fugir da infâmia de cruel para ter os seus súditos unidos e fieis, porque, com pouquíssimos exemplos, será mais piedoso do que aqueles que, por demasiada piedade, deixaram seguir as desordens, das quais nascem os assassinatos ou a rapinagem(...)”

“E há que se entender isso, que um príncipe, sobretudo um príncipe 
novo, não pode observar todas aquelas coisas pelas quais os homens são tidos como bons, sendo mesmo necessário para manter o Estado, operar contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. E também é preciso que ele tenha o ânimo disposto a mudar-se segundo o comando dos ventos da fortuna e as variações das coisas e , como acima se disse, a não abandonar o bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessário.”



sábado, 25 de agosto de 2012

Ceticismo


 (Wikipedia): A dúvida é um importante preceito cético. O ceticismo (português brasileiro) ou cepticismo (português europeu) (AO1990: ceticismo) (derivado do verbo grego σκέπτομαι, transl. sképtomai, "olhar à distância", "examinar", "observar") é a doutrina que afirma que não se pode obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, o que implica numa condição intelectual de questionamento permanente e na inadmissão da existência de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas. O termo originou-se a partir do nome comumente dado a uma corrente filosófica originada na Grécia Antiga.

Ao conversar com todos, percebia-se em sua expressão algumas notas de tristeza. Nunca admitira, no entanto, uma visão amarga sobre a vida, por mais razões que tivesse para tal. Seu perfil apenas não era dado aos rompantes extremados da emocionalidade, evitando tanto a alegria desabrida quanto a negra tristeza ou desilusão. Sabia rir, e tinha dias difíceis como qualquer mortal, mas participava sua alma dessas atuações de maneira comedida e cautelosa.

Tinha sobre a humanidade um olhar cético, por vezes mordaz, de quem sabe no íntimo o que mobiliza as pessoas em suas decisões mais cotidianas. Suas experiências e leituras permitiram uma análise do contexto muito superior ao daqueles com quem dividia sua jornada. Como resultante deste talento preditivo, era vista por todos como um ser dotado de sabedoria.

Mas ao mesmo tempo sentia-se na maior parte do tempo sozinha. Não tinha para consigo a mesma clareza de avaliação que gozava ao olhar a vida alheia. Apesar de considerar esta condição bastante poética, faltava para si o alívio de consciência de que estavam autorizadas as outras pessoas. A ela não era tão fácil compartilhar uma experiência na proteção de uma amizade, pois raros eram os que podiam entrever seus motivos e questões com a devida profundidade. Não conseguia ver sentido nas fúlgidas férias da consciências geradas por alguma droga, o excesso de sono, de consumo, excesso de mundo.

Tampouco sentia-se livre para destruir na fogueira da exposição de suas fraquezas o ideal tão necessário às pessoas em seu entorno. Talvez soubesse que apesar de alcançar longe os detalhes da paisagem do espirito humano, não tinha destino diferente de nenhum de seus pares. Também a ela cabia a finitude, bem como um intervalo de vida solitária; ora bela a causar uma explosão interna de reflexões; ora horrível, a produzir a fuga para a caverna de sua resignação e impotência.


Resenha de "O crime do padre Amaro"


O crime do padre Amaro

Eça de Queiroz, deixa de lado os finais felizes românticos e engaja-se politicamente, num texto (que hoje seria explicito, quase ingênuo) de crítica ao fator político imposto pela igreja e seus representantes, ao mesmo tempo em que com maestria conduz uma história humana, de desejos e sua luta com convenções e proibições sociais.

Para mim, o ponto mais interessante foi este segundo. Se o envolvimento político do autor fica datado, baseado nas aspirações de uma geração que já foram provadas na história (embora alguns teimosos ainda se apeguem ao passado), a segunda fala da natureza humana, tema que está sempre ali na esquina, faz parte da vida de todos. O próprio autor, após pesadas críticas à religião, coloca no final do livro o abade, personagem que redime a classe e mostra a importância de uma vida espiritual - mesmo que mantenha que a religião nem sempre leve a este objetivo.

Mais um belo exemplar de nossa literatura: escrito com habilidade, com um ritmo bastante adequado, descrições só quando necessárias (e nesses momentos são viscerais, deliciosas).

Frases selecionadas:
“A S. Joaneira esperava no alto da escada; uma criada enfezada e sardenta, alumiava com um candeeiro de petróleo; e a figura da S. Joaneira destacava plenamente na luz da parede caiada. Era gorda, alta, muito branca, de aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham já em redor a pele engelhada; os cabelos arrepiados, com um enfeite escarlate, eram já raros aos cantos da testa e no começo da risca; mas percebiam-se uns braços rechonchudos, um colo copioso e roupas asseadas.”

“O pároco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga dum Cristo crucificado. Amaro abriu o seu breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o teto , através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.”

“Na sua cela, havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas, pousada sobre a esfera, com um olhar errante pela luz imortal, calcando aos pés a serpente. Amaro voltava-se para ela como para um refúgio, rezava-lhe a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura; amava-a; suspirava, despindo-se olhava-a de revés lubricamente; e mesmo a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da túnica azul da imagem e supor formas, redondezas, uma carne branca...Julgava então ver os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama de água benta; mas não se atrevia a revelar estes delírios, no confessionário, ao domingo.”

“Amaro ouvia-a falar, com a cabeça baixa, olhando-a de lado; a sua voz naquele silêncio dos campos parecia-lhe mais rica, mais doce; o grane ar dava-lhe uma cor mais picante às faces; o seu olhar rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que ele entreviu, perturbou-o como um começo da sua nudez.”
“ – É natural, coitado – disse, já com a mão no fecho da porta. Que queres tu? Ele tem para as mulheres, como homem, paixões e órgãos; como confessor, a importância dum Deus. É evidente que há-de utilizar essa importância para satisfazer essas paixões; e que há-de cobrir essa satisfação natural com as aparências e com os pretextos do serviço divino... É natural.”

“Trinta em oito vezes de seguida recomeçara o rosário, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ela e  Nossa Senhora!...Então, desistira, de exausta, de esfalfada. E imediatamente sentira dores vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes nas pernas...
O abade pulou:
 - Oh minha senhora!...
 - Ai, não é tudo, senhor abade!
Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engolia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?”

“ – Aí tem o abade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistência às mais justas solicitações da natureza, e resistência aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é criar um monstro que há-de passar a sua desgraçada existência numa batalha desesperada contra os dois fatos irresistíveis do Universo – a força da Matéria e a força da Razão!
 - Que está o senhor a dizer? Exclamou assombrado o abade.
 - Estou a dizer a verdade. Em que consiste a educação dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundo: em evitar todo o conhecimento e toda a idéia que seja capaz de abalar a fé católica; isto é, a supressão forçada do espírito de indagação e de exame; portanto de toda a ciência real e humana...”

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Resenha de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen


Um caso de filme melhor do que o livro?

Foi pela atração pelo trabalho e figura da atriz Emma Thompson que um dia escolhi assistir “Razão e Sensibilidade”, filme do diretor Ang Lee. Daí a assistir outros filmes sobre os modos ingleses antigos (Howards End, Vestigios do Dia e mesmo o Orgulho e Preconceito, da mesma autora), foi um pulo. Ela foi a roteirista do filme, e não por acaso, poderei ser acusado de defender sua versão da história – considerando-a melhor que a de Jane Austen.

Vou me arriscar nesta resenha. Ao terminar a leitura de Razão e Sensibilidade, que gostei tanto no cinema, confesso que achei infundada a legião de fãs que a autora reúne. Não achei o livro muito bom.
Não sei se o brilhantismo dela sumiu na tradução da versão que li, ou se foi outra coisa, mas achei o livro ordinário em alguns pontos, e considerei mesmo que as entrelinhas lidas pelos estudiosos sobre uma suposta visão crítica da sociedade burguesa é que engrandeceram sua obra ao grande público. Se lermos seu livro sem esta ideia prévia, no entanto, a história parecerá mais um romance dramático, bem situado temporalmente, e só. Tem personagens que me pareceram mais “rasos” que os dos clássicos brasileiros que li recentemente.

O jeito da autora, de contar a história pelos diálogos entre os personagens, por vezes é enfadonho, mesmo que possamos ver com algum prazer a forma de pensamento vigente na época. Jane Austen (e o roteiro do filme fortalece isto) viveu numa sociedade inglesa machista, quase de castas. Seus fãs alardeiam que seus romances denunciam a situação oprimida da mulher daquele tempo. Cá pra mim, acho até possível que se deduza isto, mas nas mais de 300 páginas deste romance, nem uma palavra foi dita sobre a condição dos criados, independentes do gênero – infinitamente mais oprimidos. Sem discursos inflamados de esquerda por aqui, mas é engraçado uma autora alardeada por sua consciência política ter um lapso destes.

Edward Ferrars, é desculpado de sua rica vida de “dissipação” de tempo e fortuna. A mesma sorte não têm aqueles com mesma conduta, se ousam professar ou atirar-se a suas paixões, mas não mantém suas palavras e constância. Amar é sublime e sensível, qualidades importantes, mas mudar de amor sem ser forçado a isto é prova de falta de caráter. Ok, talvez aqui um resquício romântico, entendo que era a literatura da época. O trabalho não enobrece, ao contrário, quem o faz são os hábitos de leitura e dedicação às artes, assim como caminhadas, discussões inteligentes e outros usos do tempo ocioso (que delícia!).

Bom, para Emma Thompson, meus parabéns. Para Jane Austen, ainda me resta o volume de “Pride and Prejudice” – isto mesmo, em inglês, que pretendo ler em seguida, para quem sabem redimir a autora em meu conceito.

Frases selecionadas. Ao reler as páginas que marquei, achei o restante chato, então ficaram só estas:

“Ele próprio (Edward) não era capaz de fazer justiça a si mesmo; mas, tão logo conseguisse dominar a timidez seu modo de agir demonstrava que tinha um coração aberto e afetuoso, que era inteligente e possuía uma educação que lhe garantira um sólido desenvolvimento. Mas não apresetava a menor habilidade nem disposição para corresponder aos desejos tanto de sua mãe quanto de sua irmã, que sonhavam vê-lo tornar-se notável e importante por...nem mesmo elas sabiam por quê. Queriam que ele tivesse destaque no mundo de um jeito ou de outro. (...) Mas Edward não dava importância para grandes homens ou caleches. Toda sua aspiração centrava-se em conforto doméstico e em uma vida particular tranquila.”

“ – Uma mulher com vinte e sete anos – afirmou Marianne, depois de pensar por um momento – jamais pode ter esperança de inspirar afeto. Se sua casa for desconfortável e sua fortuna pequena, suponho que deva se submeter a desempenhar as funções de enfermeira do marido a fim de garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. Casar-se com uma mulher nestas condições nada teria de impróprio, mas seria um pacto de conveniências e o mundo ficaria satisfeito. Aos meus olhos, no entato, este não seria um casamento, de maneira alguma. Para mim, significaria apenas um contrato comercial em que cada qual se beneficiaria à custa do outro.”


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Deliciosas frases de "Senhora"

Minha resenha sobre "Senhora" de José de Alencar, também disponível no Skoob:

"Inverossímel, mas Agradável"


Da virgem dos lábios de mel para este livro, quase outro autor, com um senso apurado nos diálogos e um estilo (ainda) formal, mas menos pomposo.

A agudeza de suas descrições deixa os ambientes e passa aos costumes da vida social no Rio de Janeiro. É dai que surge a fraqueza do livro, em minha humilde opinião.

Aurélia, a "Senhora" do título, aos 18 anos, por ter passado pela situação de pobreza e riqueza, é estranhamente madura e planeja um ardiloso plano para "vingar-se" de seu único amor, ou como sugere o próprio autor, deixar-lhe patente a grandeza de seu amor por um supremo sacrifício do destino. A mesma consciência das situações, inteligência e sagacidade nos diálogos com Seixas (o amado) contradizem que caia numa vingança tão vil, ainda que fosse inconsciente desejo de viver a seu lado.

Ainda assim, é o tipo de romance que gosto, pois nos agarra à história e pede leitura até sua conclusão.

Trechos selecionados:
"Felizmente D. Camila tinha dado a suas filhas a mesma vigorosa educação que recebera; antiga educação brasileira, já bem rara em nossos dias, que, se não fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes abnegações que protegem a família e faze da humilde casa um santuário."

"Ouviu-se um frolido de sedas, e Aurélia Assomou na porta do salão.
Trazia nessa noite um vestido de nobreza opala, que assentava-lhe admiravelmente, debuxando como uma luva o formoso busto. Com as rutilações da seda que ondeava ao reflexo das luzes, tornavam-se ainda mais suaves as inflexões harmoniosas do talhe sedutor.
Como que banhava-se essa estátua voluptuosa, em um gás de leite e fragrância.
Seus opulentos cabelos colhidos na nuca por uma diadema de opalas, borbotavam em cascatas sobre as alvas espáduas bombeadas, com uma elegante simplicidade e garbo original que a arte não pode dar, ainda que o imite, e que só a própria natureza incute."

"Os lindos cabelos negros refluíam-lhe pelos ombros presos apenas com o arco de ouro, que cingia-lhe a opulenta madeixa; o pé escondia-se em um pantufo de cetim que às vezes beliscava a orla da anágua, como um travesso beija-flor."

"Parecerá estranha esta paixão veemente, rica de heróica dedicação, que entretanto assiste calma, quase impassível, ao declínio do afeto com que lhe retribuía o homem amado, e se deixa abandonar, sem proferir um queixume, nem fazer um esforço para reter a ventura que foge.
Esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos,. porque o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ningém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos".



"Quando Aurélia diberara o casamento que veio a realizar, não se inspirou em um cálculo de vingança. Sua idéia, a que afagava e lhe sorria, era patentear a seixas a imensidade da paixão, que ele não soubera compreender; sacrificando sua liberdade e todas as esperanças para unir-se a um homem a quem não amava e nem podia amar, desnudava a seus olhos o ermo sáfaro em que lhe ficara a alma, depois da perda desse amor, que era toda sua existência. Esse casamento póstumo de um amor extinto não era senão esplêndido funeral, em face do qual Seixas devia sentir-se mesquinho e ridículo, como em face da essa o soberbo compenetra-se da miséria humana."

"Aurélia cerrara as pálpebras, e atirara de novo a cabeça sobre a almofada, com esse delicioso abandono, em que o corpo remite-se depois de um excessivo exercício. Fernando na mesma posição contemplava a formosa mulher, que ele tinha ali, palpitante sob o seu olhar e ao contato do peito onde fervilhavam os frocos de renda do talhe do vestido, aflorando ao vivo ofego da respiração."

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mais uma resenha do Skoob

Estou tentando colocar um comentário e trechos selecionados de cada livro da biblioteca daqui.
Abaixo, O CORTIÇO, de Aluísio Azevedo

Lido à época dos "livros obrigatórios" do ensino médio, não tinha me chamado a atenção .Desta vez, relido para as resenhas do skoob, foi um verdadeiro prazer passar pelas páginas deste livro. Destaque para o trecho selecionado em negrito, abaixo:

Muito boa a capacidade de descrição do ambiente e o ritmo que consegue manter durante a história. Praticamente, você não consegue se desgrudar do livro. Sempre acontece alguma coisa, ou se introduz uma personagem importante e interessante. Como destaque negativo, a edição da "Ática", que é de baixa qualidade. Acho que o foco é que seja barata. Desmontou na minha mão, e tem espaço entre linhas bastante desconfortável.

Trechos selecionados:

"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

A roupa lavada, que ficara de v[espera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono, ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite..."

"Jerônimo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de restilo que havia no copo.

Sóbrio como era, e depois daquele dispêndio de suor, o álcool produziu-lhe logo de pronto o feito voluptuoso e agradável da embriaguez nos que não são bêbedos: um delicioso desfalecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede à satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ela algum tempo, aproxima-se afinal de nós, numa avidez gulosa de beijos."

"E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo caruru; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e desde que o café encheu a casa com seu aroma quente, Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo, e não tardou a fumar também com os amigos."

"Pombinha, impressionada pela transformação da voz dele, levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam duas a duas, três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera tantas cartas naquelas mesmas condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do cortiço, sobressaltava-se agora com os desalentados soluções do ferreiro.Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em seu pleno desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surpreendia. Não a comovera tanto a revolução física. Como que naquele instante o mundo inteiro se despia à sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas paixões. Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea.(...)Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre eles, a tal ponto , que os infelizes, carregados de desonra e de ludibrio, ainda vinham covardes e suplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ela lhes fizera?...E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria força e do seu próprio valor.Sorriu.E no seu sorriso já havia garras."(...)E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar dea sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.(...)E sentiu diante dos olhos aquela massa informe de machos e fêmeas a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-lhe uns aos outros. E viu o Firmo e o Jerônimo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadela da rua; e viu o miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel, que se divertia a fazê-lo dançar a seus pés seguro pelos chifres; e viu o Domingos, que fora da venda, furtando horas de sono, depois de um trabalho de burro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com sacrifício, só para ter um instante de luxúria entre as pernas de uma desgraçadinha irresponsável e tola; e tornou a ver bruno a soluçar pela mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e trabalhadores de toda a espécie, num exército de bestas sensuais, cujos segredos ela possuía, cujas íntimas correspondências escrevera dia a dia..."



quinta-feira, 17 de maio de 2012

De 08-2007 - Meus personagens estrangeiros e seus nomes inverossímeis

Meus personagens estrangeiros e seus nomes inverossímeis

John Barlton disse para mim outro dia que com toda a confusão do mundo, trânsito, luta por sobrevivência, poluição, aquecimento global, e um monte de “você TEM QUE” que agüentamos por absoluta falta de opção, era cada vez maior o número de amigos dele que simplesmente não eram mais compatíveis com a vida sem algum comprimido desses que os psiquiatras nos receitam e os psicólogos execram.

 Suzie Dixtensen concordou, e refletiu que ultimamente estava tendo dificuldades em vencer sua hesitação de enfrentar o mundo que ruge do lado de fora da porta de seu apartamento. As vezes, só para provar que era capaz e só “não estava com vontade”, ela se obrigava a ir ao corredor e até apertava o botão para chamar o elevador. Esta atitude invariavelmente gerava garganta seca e palpitação.

domingo, 25 de março de 2012

Maio/2007 até que foi produtivo...

Junior e o Rock Progressivo

Chamaram-no de Junior desde o começo. Era magro e aparentava fragilidade, ainda mais por usar roupas escuras a maior parte do tempo. Tinha os olhos grandes, típicos de índole observadora. Sabia pouco de si, apesar de passar tanto tempo introspectivo. De que gostava? Gostava do que gostavam aqueles que ele admirava. Naquela época, isso queria dizer rock progressivo.

Ficava confuso com os nomes de tantos músicos, mas sabia que se tivesse mais de nove minutos de duração, e solos grandes, então devia ser som dos bons. Pra ficar pior, não bastava saber o nome do vocalista. Era preciso conhecer os principais músicos, às vezes todos eles. Para não reconhecerem sua farsa, ele se esforçava: buscava gravações raras, tentava decorar uma música ou outra. Mas a maioria das vezes sentia sono no meio das músicas. Como se igualar àqueles que sabiam a letra? Solos intermináveis, ele pensava.

Uma vez, Junior deitou-se olhando para o céu e escutou Pink Floyd. Por um momento, foi transportado para outro mundo. Cada sonzinho misturado fazia sentido e sua mente se dissolveu. Não sabia nada de si, e por um momento não importava.

Fixou-se nessa banda por um tempo, mas tinha o “The Wall”. O problema do Pink Floyd era esse... não era excêntrico o suficiente. Era muito acessível. Junior era o cara que gostava de Pink Floyd, e daí?

Já faz 7 anos que ele deitou olhando para o céu, e Junior ainda não se conhece bem. Continua atrás de sua turma, que nunca está atrás dele. Agora escutam “Ramones”, e não dá tempo de sentir sono, está bem mais fácil. As letras também são bem mais fáceis de decorar. Seria o céu, mas nunca superou a questão do rock progressivo.

Oh! Por que tivemos essa fase em nossas vidas? Por que um dia achamos que o rock viraria música clássica? Junior pensa nisso e bebe vodka. Bebe de raiva de seu fígado, e por nunca ter sido apresentado à sua própria vontade.

de maio de 2007 (outro texto)

Perplexo I

Hoje cedo li um texto de Rui Castro, da Folha, falando que devíamos “ter direito a xis minutos diários de exclusividade dos próprios sentidos, sem precisar plugá-los a nenhuma geringonça do demônio ou deixá-los ser invadidos e envenenados por imagens e sons que ninguém pediu para existir.” Adorei. Apesar de viver plugado nessas invenções, não desconheço serem demoníacas.

O tempo vai passando, e como não podia deixar de ser, nossas mentes começam a se moldar por esse mundo, que agora não é mais somente o mundo natural e o subjetivo. Esse dois ainda estão lá, mas agora trespassados pelo mundo virtual.

De meu computador, consigo ver o tráfego aéreo virtual numa rede simulada do Flight Simulator. Como o mundo todo está representado lá, já tem gente que usa para velejar ou andar de lancha pelos mares. Tudo de mentira. Verdade apenas as dimensões terrestres, o clima e o tempo.

Enquanto isso, minha mulher conversa com um novo colega em Second Life. Nesse mundo virtual não existe o compromisso em parecer com o real. As pessoas voam, você pode criar uma porção de terra nova, enfim... o céu não é o limite. Enquanto eu tenho a idéia para o blog, ela está visitando as instalações da rede “Canção Nova” – que agora possui uma ilha virtual.

Trecho de conversa em Second Life:

- De que clube você faz parte?
- De um grupo de homens separados que têm a guarda dos filhos...
- Nossa, há quanto tempo está separado?
- Uma semana.
- É recente então! Deve estar se adaptando. Quantos anos você tem?
(EM PARTICULAR, para os outros não verem) – Nove.. hehe... mas não conta pra ninguém!

(!!!!)

Publicado originalmente em maio de 2007

Homens-Destino

Nada sobrevive a essa análise. Se você não achou uma resposta pronta religiosa, então verá que a única razão de existir estava em sobreviver para procriar. Como já tem gente demais no mundo, e as doenças sexualmente transmissíveis, sobreviver perde um pouco de sua essência.

E sobreviver é algo difícil hoje em dia. Nada de comida, água e abrigo apenas. Tem conta no banco, impostos, carro, internet, status e mais um monte de coisa para ocupar o tempo e a mente. No deslocado de objetivos, eram todas coisas úteis pra sobreviver e procriar. Hoje em dia, talvez seja bom o bastante pra não virar mendigo.

Pra tirar esse vazio, valem drogas, e religiões. Valem também as soluções individuais: os Homens-Destino. Estes são os que decidem uma razão arbitrária da vida, e não gastam mais suas energias com essa pergunta indigesta. Homens-destino produzem.

Alguns influenciam os outros, ganhando nova denominação. São os Homens-Destino-Dos-Outros. Pessoas que carregam dois ou mais pro destino que elegeram como bom para justificar o esforço de levantar de manhã. Irônico que seja, o fazem pelo antigo objetivo. Influenciam pelo poder e acesso a parceiros, para sobreviver e procriar. É... um vício de gerações. Coisa difícil de matar.

O Homem-destino não olha no espelho. Se olhar, sua certeza estremece. Como justificar o esforço dispendido então? Sublimar, diria o terapeuta. Mas por essa energia em que? O que não é destino arbitrário? Sobreviver e procriar? Procriar? Para que a prole sobreviva e procrie?

Não... acho que fazemos isso pra curtir de fora a descendência descobrindo as coisas da vida. Deve ser bem mais legal que internet e tv juntos.