quinta-feira, 19 de julho de 2012

Resenha de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen


Um caso de filme melhor do que o livro?

Foi pela atração pelo trabalho e figura da atriz Emma Thompson que um dia escolhi assistir “Razão e Sensibilidade”, filme do diretor Ang Lee. Daí a assistir outros filmes sobre os modos ingleses antigos (Howards End, Vestigios do Dia e mesmo o Orgulho e Preconceito, da mesma autora), foi um pulo. Ela foi a roteirista do filme, e não por acaso, poderei ser acusado de defender sua versão da história – considerando-a melhor que a de Jane Austen.

Vou me arriscar nesta resenha. Ao terminar a leitura de Razão e Sensibilidade, que gostei tanto no cinema, confesso que achei infundada a legião de fãs que a autora reúne. Não achei o livro muito bom.
Não sei se o brilhantismo dela sumiu na tradução da versão que li, ou se foi outra coisa, mas achei o livro ordinário em alguns pontos, e considerei mesmo que as entrelinhas lidas pelos estudiosos sobre uma suposta visão crítica da sociedade burguesa é que engrandeceram sua obra ao grande público. Se lermos seu livro sem esta ideia prévia, no entanto, a história parecerá mais um romance dramático, bem situado temporalmente, e só. Tem personagens que me pareceram mais “rasos” que os dos clássicos brasileiros que li recentemente.

O jeito da autora, de contar a história pelos diálogos entre os personagens, por vezes é enfadonho, mesmo que possamos ver com algum prazer a forma de pensamento vigente na época. Jane Austen (e o roteiro do filme fortalece isto) viveu numa sociedade inglesa machista, quase de castas. Seus fãs alardeiam que seus romances denunciam a situação oprimida da mulher daquele tempo. Cá pra mim, acho até possível que se deduza isto, mas nas mais de 300 páginas deste romance, nem uma palavra foi dita sobre a condição dos criados, independentes do gênero – infinitamente mais oprimidos. Sem discursos inflamados de esquerda por aqui, mas é engraçado uma autora alardeada por sua consciência política ter um lapso destes.

Edward Ferrars, é desculpado de sua rica vida de “dissipação” de tempo e fortuna. A mesma sorte não têm aqueles com mesma conduta, se ousam professar ou atirar-se a suas paixões, mas não mantém suas palavras e constância. Amar é sublime e sensível, qualidades importantes, mas mudar de amor sem ser forçado a isto é prova de falta de caráter. Ok, talvez aqui um resquício romântico, entendo que era a literatura da época. O trabalho não enobrece, ao contrário, quem o faz são os hábitos de leitura e dedicação às artes, assim como caminhadas, discussões inteligentes e outros usos do tempo ocioso (que delícia!).

Bom, para Emma Thompson, meus parabéns. Para Jane Austen, ainda me resta o volume de “Pride and Prejudice” – isto mesmo, em inglês, que pretendo ler em seguida, para quem sabem redimir a autora em meu conceito.

Frases selecionadas. Ao reler as páginas que marquei, achei o restante chato, então ficaram só estas:

“Ele próprio (Edward) não era capaz de fazer justiça a si mesmo; mas, tão logo conseguisse dominar a timidez seu modo de agir demonstrava que tinha um coração aberto e afetuoso, que era inteligente e possuía uma educação que lhe garantira um sólido desenvolvimento. Mas não apresetava a menor habilidade nem disposição para corresponder aos desejos tanto de sua mãe quanto de sua irmã, que sonhavam vê-lo tornar-se notável e importante por...nem mesmo elas sabiam por quê. Queriam que ele tivesse destaque no mundo de um jeito ou de outro. (...) Mas Edward não dava importância para grandes homens ou caleches. Toda sua aspiração centrava-se em conforto doméstico e em uma vida particular tranquila.”

“ – Uma mulher com vinte e sete anos – afirmou Marianne, depois de pensar por um momento – jamais pode ter esperança de inspirar afeto. Se sua casa for desconfortável e sua fortuna pequena, suponho que deva se submeter a desempenhar as funções de enfermeira do marido a fim de garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. Casar-se com uma mulher nestas condições nada teria de impróprio, mas seria um pacto de conveniências e o mundo ficaria satisfeito. Aos meus olhos, no entato, este não seria um casamento, de maneira alguma. Para mim, significaria apenas um contrato comercial em que cada qual se beneficiaria à custa do outro.”


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Deliciosas frases de "Senhora"

Minha resenha sobre "Senhora" de José de Alencar, também disponível no Skoob:

"Inverossímel, mas Agradável"


Da virgem dos lábios de mel para este livro, quase outro autor, com um senso apurado nos diálogos e um estilo (ainda) formal, mas menos pomposo.

A agudeza de suas descrições deixa os ambientes e passa aos costumes da vida social no Rio de Janeiro. É dai que surge a fraqueza do livro, em minha humilde opinião.

Aurélia, a "Senhora" do título, aos 18 anos, por ter passado pela situação de pobreza e riqueza, é estranhamente madura e planeja um ardiloso plano para "vingar-se" de seu único amor, ou como sugere o próprio autor, deixar-lhe patente a grandeza de seu amor por um supremo sacrifício do destino. A mesma consciência das situações, inteligência e sagacidade nos diálogos com Seixas (o amado) contradizem que caia numa vingança tão vil, ainda que fosse inconsciente desejo de viver a seu lado.

Ainda assim, é o tipo de romance que gosto, pois nos agarra à história e pede leitura até sua conclusão.

Trechos selecionados:
"Felizmente D. Camila tinha dado a suas filhas a mesma vigorosa educação que recebera; antiga educação brasileira, já bem rara em nossos dias, que, se não fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes abnegações que protegem a família e faze da humilde casa um santuário."

"Ouviu-se um frolido de sedas, e Aurélia Assomou na porta do salão.
Trazia nessa noite um vestido de nobreza opala, que assentava-lhe admiravelmente, debuxando como uma luva o formoso busto. Com as rutilações da seda que ondeava ao reflexo das luzes, tornavam-se ainda mais suaves as inflexões harmoniosas do talhe sedutor.
Como que banhava-se essa estátua voluptuosa, em um gás de leite e fragrância.
Seus opulentos cabelos colhidos na nuca por uma diadema de opalas, borbotavam em cascatas sobre as alvas espáduas bombeadas, com uma elegante simplicidade e garbo original que a arte não pode dar, ainda que o imite, e que só a própria natureza incute."

"Os lindos cabelos negros refluíam-lhe pelos ombros presos apenas com o arco de ouro, que cingia-lhe a opulenta madeixa; o pé escondia-se em um pantufo de cetim que às vezes beliscava a orla da anágua, como um travesso beija-flor."

"Parecerá estranha esta paixão veemente, rica de heróica dedicação, que entretanto assiste calma, quase impassível, ao declínio do afeto com que lhe retribuía o homem amado, e se deixa abandonar, sem proferir um queixume, nem fazer um esforço para reter a ventura que foge.
Esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos,. porque o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ningém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos".



"Quando Aurélia diberara o casamento que veio a realizar, não se inspirou em um cálculo de vingança. Sua idéia, a que afagava e lhe sorria, era patentear a seixas a imensidade da paixão, que ele não soubera compreender; sacrificando sua liberdade e todas as esperanças para unir-se a um homem a quem não amava e nem podia amar, desnudava a seus olhos o ermo sáfaro em que lhe ficara a alma, depois da perda desse amor, que era toda sua existência. Esse casamento póstumo de um amor extinto não era senão esplêndido funeral, em face do qual Seixas devia sentir-se mesquinho e ridículo, como em face da essa o soberbo compenetra-se da miséria humana."

"Aurélia cerrara as pálpebras, e atirara de novo a cabeça sobre a almofada, com esse delicioso abandono, em que o corpo remite-se depois de um excessivo exercício. Fernando na mesma posição contemplava a formosa mulher, que ele tinha ali, palpitante sob o seu olhar e ao contato do peito onde fervilhavam os frocos de renda do talhe do vestido, aflorando ao vivo ofego da respiração."

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mais uma resenha do Skoob

Estou tentando colocar um comentário e trechos selecionados de cada livro da biblioteca daqui.
Abaixo, O CORTIÇO, de Aluísio Azevedo

Lido à época dos "livros obrigatórios" do ensino médio, não tinha me chamado a atenção .Desta vez, relido para as resenhas do skoob, foi um verdadeiro prazer passar pelas páginas deste livro. Destaque para o trecho selecionado em negrito, abaixo:

Muito boa a capacidade de descrição do ambiente e o ritmo que consegue manter durante a história. Praticamente, você não consegue se desgrudar do livro. Sempre acontece alguma coisa, ou se introduz uma personagem importante e interessante. Como destaque negativo, a edição da "Ática", que é de baixa qualidade. Acho que o foco é que seja barata. Desmontou na minha mão, e tem espaço entre linhas bastante desconfortável.

Trechos selecionados:

"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

A roupa lavada, que ficara de v[espera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono, ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite..."

"Jerônimo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de restilo que havia no copo.

Sóbrio como era, e depois daquele dispêndio de suor, o álcool produziu-lhe logo de pronto o feito voluptuoso e agradável da embriaguez nos que não são bêbedos: um delicioso desfalecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede à satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ela algum tempo, aproxima-se afinal de nós, numa avidez gulosa de beijos."

"E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo caruru; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e desde que o café encheu a casa com seu aroma quente, Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo, e não tardou a fumar também com os amigos."

"Pombinha, impressionada pela transformação da voz dele, levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam duas a duas, três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera tantas cartas naquelas mesmas condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do cortiço, sobressaltava-se agora com os desalentados soluções do ferreiro.Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em seu pleno desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surpreendia. Não a comovera tanto a revolução física. Como que naquele instante o mundo inteiro se despia à sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas paixões. Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea.(...)Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre eles, a tal ponto , que os infelizes, carregados de desonra e de ludibrio, ainda vinham covardes e suplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ela lhes fizera?...E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria força e do seu próprio valor.Sorriu.E no seu sorriso já havia garras."(...)E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar dea sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.(...)E sentiu diante dos olhos aquela massa informe de machos e fêmeas a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-lhe uns aos outros. E viu o Firmo e o Jerônimo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadela da rua; e viu o miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel, que se divertia a fazê-lo dançar a seus pés seguro pelos chifres; e viu o Domingos, que fora da venda, furtando horas de sono, depois de um trabalho de burro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com sacrifício, só para ter um instante de luxúria entre as pernas de uma desgraçadinha irresponsável e tola; e tornou a ver bruno a soluçar pela mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e trabalhadores de toda a espécie, num exército de bestas sensuais, cujos segredos ela possuía, cujas íntimas correspondências escrevera dia a dia..."



quinta-feira, 17 de maio de 2012

De 08-2007 - Meus personagens estrangeiros e seus nomes inverossímeis

Meus personagens estrangeiros e seus nomes inverossímeis

John Barlton disse para mim outro dia que com toda a confusão do mundo, trânsito, luta por sobrevivência, poluição, aquecimento global, e um monte de “você TEM QUE” que agüentamos por absoluta falta de opção, era cada vez maior o número de amigos dele que simplesmente não eram mais compatíveis com a vida sem algum comprimido desses que os psiquiatras nos receitam e os psicólogos execram.

 Suzie Dixtensen concordou, e refletiu que ultimamente estava tendo dificuldades em vencer sua hesitação de enfrentar o mundo que ruge do lado de fora da porta de seu apartamento. As vezes, só para provar que era capaz e só “não estava com vontade”, ela se obrigava a ir ao corredor e até apertava o botão para chamar o elevador. Esta atitude invariavelmente gerava garganta seca e palpitação.

domingo, 25 de março de 2012

Maio/2007 até que foi produtivo...

Junior e o Rock Progressivo

Chamaram-no de Junior desde o começo. Era magro e aparentava fragilidade, ainda mais por usar roupas escuras a maior parte do tempo. Tinha os olhos grandes, típicos de índole observadora. Sabia pouco de si, apesar de passar tanto tempo introspectivo. De que gostava? Gostava do que gostavam aqueles que ele admirava. Naquela época, isso queria dizer rock progressivo.

Ficava confuso com os nomes de tantos músicos, mas sabia que se tivesse mais de nove minutos de duração, e solos grandes, então devia ser som dos bons. Pra ficar pior, não bastava saber o nome do vocalista. Era preciso conhecer os principais músicos, às vezes todos eles. Para não reconhecerem sua farsa, ele se esforçava: buscava gravações raras, tentava decorar uma música ou outra. Mas a maioria das vezes sentia sono no meio das músicas. Como se igualar àqueles que sabiam a letra? Solos intermináveis, ele pensava.

Uma vez, Junior deitou-se olhando para o céu e escutou Pink Floyd. Por um momento, foi transportado para outro mundo. Cada sonzinho misturado fazia sentido e sua mente se dissolveu. Não sabia nada de si, e por um momento não importava.

Fixou-se nessa banda por um tempo, mas tinha o “The Wall”. O problema do Pink Floyd era esse... não era excêntrico o suficiente. Era muito acessível. Junior era o cara que gostava de Pink Floyd, e daí?

Já faz 7 anos que ele deitou olhando para o céu, e Junior ainda não se conhece bem. Continua atrás de sua turma, que nunca está atrás dele. Agora escutam “Ramones”, e não dá tempo de sentir sono, está bem mais fácil. As letras também são bem mais fáceis de decorar. Seria o céu, mas nunca superou a questão do rock progressivo.

Oh! Por que tivemos essa fase em nossas vidas? Por que um dia achamos que o rock viraria música clássica? Junior pensa nisso e bebe vodka. Bebe de raiva de seu fígado, e por nunca ter sido apresentado à sua própria vontade.

de maio de 2007 (outro texto)

Perplexo I

Hoje cedo li um texto de Rui Castro, da Folha, falando que devíamos “ter direito a xis minutos diários de exclusividade dos próprios sentidos, sem precisar plugá-los a nenhuma geringonça do demônio ou deixá-los ser invadidos e envenenados por imagens e sons que ninguém pediu para existir.” Adorei. Apesar de viver plugado nessas invenções, não desconheço serem demoníacas.

O tempo vai passando, e como não podia deixar de ser, nossas mentes começam a se moldar por esse mundo, que agora não é mais somente o mundo natural e o subjetivo. Esse dois ainda estão lá, mas agora trespassados pelo mundo virtual.

De meu computador, consigo ver o tráfego aéreo virtual numa rede simulada do Flight Simulator. Como o mundo todo está representado lá, já tem gente que usa para velejar ou andar de lancha pelos mares. Tudo de mentira. Verdade apenas as dimensões terrestres, o clima e o tempo.

Enquanto isso, minha mulher conversa com um novo colega em Second Life. Nesse mundo virtual não existe o compromisso em parecer com o real. As pessoas voam, você pode criar uma porção de terra nova, enfim... o céu não é o limite. Enquanto eu tenho a idéia para o blog, ela está visitando as instalações da rede “Canção Nova” – que agora possui uma ilha virtual.

Trecho de conversa em Second Life:

- De que clube você faz parte?
- De um grupo de homens separados que têm a guarda dos filhos...
- Nossa, há quanto tempo está separado?
- Uma semana.
- É recente então! Deve estar se adaptando. Quantos anos você tem?
(EM PARTICULAR, para os outros não verem) – Nove.. hehe... mas não conta pra ninguém!

(!!!!)

Publicado originalmente em maio de 2007

Homens-Destino

Nada sobrevive a essa análise. Se você não achou uma resposta pronta religiosa, então verá que a única razão de existir estava em sobreviver para procriar. Como já tem gente demais no mundo, e as doenças sexualmente transmissíveis, sobreviver perde um pouco de sua essência.

E sobreviver é algo difícil hoje em dia. Nada de comida, água e abrigo apenas. Tem conta no banco, impostos, carro, internet, status e mais um monte de coisa para ocupar o tempo e a mente. No deslocado de objetivos, eram todas coisas úteis pra sobreviver e procriar. Hoje em dia, talvez seja bom o bastante pra não virar mendigo.

Pra tirar esse vazio, valem drogas, e religiões. Valem também as soluções individuais: os Homens-Destino. Estes são os que decidem uma razão arbitrária da vida, e não gastam mais suas energias com essa pergunta indigesta. Homens-destino produzem.

Alguns influenciam os outros, ganhando nova denominação. São os Homens-Destino-Dos-Outros. Pessoas que carregam dois ou mais pro destino que elegeram como bom para justificar o esforço de levantar de manhã. Irônico que seja, o fazem pelo antigo objetivo. Influenciam pelo poder e acesso a parceiros, para sobreviver e procriar. É... um vício de gerações. Coisa difícil de matar.

O Homem-destino não olha no espelho. Se olhar, sua certeza estremece. Como justificar o esforço dispendido então? Sublimar, diria o terapeuta. Mas por essa energia em que? O que não é destino arbitrário? Sobreviver e procriar? Procriar? Para que a prole sobreviva e procrie?

Não... acho que fazemos isso pra curtir de fora a descendência descobrindo as coisas da vida. Deve ser bem mais legal que internet e tv juntos.

Publicado originalmente em 07/11/2007

Mais um resgate do antigo blog:

Da trilha Sonora de "Broken Flowers" - sugestão para acompanhar

http://br.youtube.com/watch?v=01bdzqs4iq4


Baseado em depoimentos de diferentes (talvez nem tanto) alter egos:

“Acontece alguma coisa estranha com você quando viaja muito de carro? Eu “viajo” (no outro sentido) quando olho gotas de chuva se movendo com o vento gerado pela velocidade do carro, e me pergunto quem esteve no volante nos últimos 5 minutos.”

“Viajar de noite, com chuva, tem o barulho das gotas na lataria. Tem a preocupação em não pegar uma poça grande, tem a tensão em chegar logo em casa. Será que terá parado? Ou vou abrir o portão e ficar todo molhado?”

“Viajar nesses dias tem o charme do reflexo vermelho das lanternas dos outros carros. Difrações doidas por todo o lado, e a lembrança avivada do início de “Taxi Driver”. Falta só o saxofone melancólico.”

“Nessas noites de viagem tem músicas saudosas no rádio. Entre Phil Collins e Spandau Ballet, tem o locutor tentando esticar a conversa com alguém que ligou. Mas esse alguém nem tem o que falar. Quer ficar na fossa ouvindo música. Música de elevador.”

“Se você quiser, nessas noites você pode falar sozinho. Decidir coisas, pensar na vida. A viagem é longa, e a mente não suporta se preocupar apenas com o trânsito à sua frente. Dá pra olhar os detalhes em volta, mas com chuva ficam tristes. Será que a barraca de frutas tem goteira? Se eu tivesse um radinho PX, o caminhoneiro “QRA Capixaba” seria simpático?”

“Lentamente, o automóvel vai comendo a distância até seu destino, e você chegou em casa. Quando sai da estrada, ainda está com reflexos de alta velocidade, adapta-se lentamente ao trânsito local. A primeira lombada, marchas menores revisitadas. Logo você voltará para seu mundo. A “viagem” teria deixado algum legado?”

sábado, 10 de março de 2012

Ser Livre - por Flávio Gikovate

Transcrição da resenha que fiz para meu perfil no Skoob (http://www.skoob.com.br/usuario/373905 ) - para o livro: Ser Livre - de Flávio Gikovate.


Conhecia apenas os comentários do Gikovate na Rádio CBN, e gostei muito do livro. Leve e despretensioso, mas ao mesmo tempo aborda com competência este tema complexo.

No caminho da liberdade, o autor primeiro deixa claro que a entende como "a sensação íntima de alegria que deriva da coerência entre pensamento e conduta" - e decorre desta definição que precisamos compreender cada vez mais sobre nossa natureza, pensamentos e decisões, livrando-nos de convenções ou idealizações que tentam mascarar nossa idéia da humanidade.

Frases selecionadas:
"(Os Pais) deveriam, principalmente, parar de usar a si mesmos como modelo a ser proposto aos filhos (além do que uma pessoa, para se colocar como modelo, teria que estar muito convencida de que ela é, de fato, feliz, o que não é uma realidade).

"porque o homem que aceita sua condição não se sente por baixo ao desejar e nem humilhado se não for aceito; é menos insistente e menos invasivo e tal atitude é muito intrigante e, até certo ponto, ofensivo à vaidade das mulheres habituadas a serem sempre assediadas."

"Compõe as belas idéias, que são muito tentadoras, principalmente, para os jovens; e as utopias não se realizam apenas porque elas são mentirosas, isto é, não levam em conta o ser humano real. Se forem levadas para a prática, tendem a transformar-se em doutrinas totalitárias, isto porque seus adeptos se irritam muito depressa com o fato de que elas não são imediatamente bem recebidas pelo homem real."

"Pelo simples fato de se colocarem como os defensores dos oprimidos já estão agindo no sentido de humilhar os menos favorecidos e exercendo sua brutal vaidade de heróis salvadores; pretendem para os outros aquilo que eles acham que será bom para si, o que também não é bom indício de respeito e de consciência pelas importantes diferenças individuais."

" : aceito a verdade da minha condição e posso usufruir dos prazeres da vida, apenas respeitando os direitos alheios, que são o único limitador, fácil de ser respeitado. Uma pessoa que abandonar suas idéias de grandeza e de importância e que, de fato adora a praia e o mar, poderá usufruí-los o ano inteiro e não apenas nos poucos dias de férias."

"Todo mundo fala mal de todo mundo que não pense e se comporte conforme suas posições, o que se constitui numa atitude totalitária e de total desrespeito."

"Os homens trabalham e buscam destaque apenas para terem acesso a um número maior de mulheres, coisa que os envaidece e, por instantes, neutralizam a consciência da insignificância. As mulheres cuidam cada vez mais de sua aparência com a finalidade de atrair o maior número possível de homens e se sentem momentaneamente elevadas e significantes por isto."

"Todos se comportam socialmente de modo muito contido, ostentando uma alegria e uma felicidade absolutamente hipócritas; não têm nenhum tipo de naturalidade e espontaneidade, ficando obrigados a representar um rígido papel em todas as ocasiões. A estereotipia é absoluta, e o tédio é máximo."

Publicado originalmente em 25-09-2007

Olhos espanhóis

Ok, a primeira impressão que tive ao ver o povo argentino em seu dia-a-dia foi lembrar como a gente consegue se vestir melhor quando está num lugar frio. A elegância no vestir é algo bastante comum por lá. Além disso, vi menos gordos que aqui, e algo em seus olhos que os fazia lembrar a colonização espanhola. O gene está lá! Nas mulheres, olhos negros profundos, captam nossa atenção tanto ou mais que as famosas curvas da mulher brasileira.

Será que mais alguém notou esses olhos espanhóis? Essa raiz que imagino ser moura, e que se juntou de forma tão auspiciosa com os romanos formando este belo efeito? Acho que sim... numa busca rápida encontrei músicas da Madonna, do Elvis e do U2... sobre o tema. Tinha ainda uma menção a Backstreet boys... que não fui conferir por puro preconceito.

Quem quiser ver a do U2, clique: http://br.youtube.com/watch?v=FWQqhO4XJbA

Our love shines like rain
In those spanish eyes
Spanish eyes

I'll cross the world for green and gold
But it's those Spanish eyes
That get me home...home again

Quem quiser ver a da Madonna, clique: http://br.youtube.com/watch?v=N39NaEZEHJs

I light this candle and watch it throw
Tears on my pillow
And if there is a Christ, he'll come tonight
To pray for Spanish eyes
And if I have nothing left to show
Tears on my pillow
What kind of life is this if God exists
Then help me pray for Spanish eyes

Quem quiser ver a do Elvis, clique: http://br.youtube.com/watch?v=IQd2kCuj5Nk

Soon I'll return, bringing you all the love your heart can hold
Please say "Si Si" say you and your Spanish eyes will wait for me
Say you and your Spanish eyes will wait for me

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Dias de outono

Data da postagem original: 14-04-2007


Sempre penso em escrever quando estou com sono. Acontece também em dias de outono, aqueles dias cinzas, em que vc não consegue se imaginar numa propaganda de cerveja, e ao mesmo tempo não chega a pensar em por um terno e ir trabalhar.

Já me disseram que esse sentimento não e só meu. É como se aquela situação cerebral em que estamos sonolentos mas ainda não decidimos dormir fizesse um verdadeiro milagre na nossa capacidade criativa, e nos empurrasse para fora da mesmice e mediocridade para nos tornar artistas.

Eu gosto dos dias de outono. Nos dias de outono a gente consegue pensar melhor. Se eu pudesse, fugia de lugar em lugar, buscando os dias de outono.

Nos dias de outono, gosto de me entreter fingindo ser alguém mais inteligente e talentoso que você. Finjo também ser melhor que todos os que pensam que se vivessem assim, de dia de outono em dia de outono, a vida seria melhor. Como se eu não soubesse que ao há escapatória. Mora dentro de mim um ferrenho crítico de mim mesmo, falha de caráter talvez.

Mesmo que os dias de outono existissem, eu não seria capaz de beber da alegria que trazem. Eles teriam gosto de hipocrisia. A vida não tem saída mesmo. Não e fatalista essa idéia tem ate algo de engraçado nisso. Poético, calmante. Algo que te diz: desacelere o passo, esta querendo chegar aonde?

Queria só chegar no próximo dia de outono.

Nada disso! Doutor! Chega de lamúrias. Dê-se por contente pelo fato de que sua vida continua seguindo em frente, a despeito de seus esforços para sabotar-lhe as engrenagens. Um dia conseguirá entender e beber das alegrias das outras estações!

Nesse dia, vou deixar de gostar de fingir ser mais inteligente que você.

Reedição de postagens de 2007

Finalmente encontro tempo para resgatar os textos que ficaram presos no blog fmichelete.blog.uol.com.br. Ainda está no ar, mas preferi ficar aqui no blogspot, e fiquei muito triste por não poder simplesmente transplantá-lo para cá.

Melhor assim. Vou selecionar e publicar.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Confissão de Lúcio

A Confissão de Lúcio

Sabe aqueles livros que a gente não lê, porque eram obrigação na escola? Pois é, eu também procurava um resumo (na época não tinha internet, mas apostilas de cursinho resolviam) e com isso me virava suficientemente bem nas provas.

Ao cadastrar o livro de Mario de Sá-Carneiro no skoob, achei que seria desonesto se não o lesse realmente. Acabei por fazê-lo (respeitei no cadastro o período em que tive o primeiro contato com a obra). Minha surpresa foi ter encontrado outro grande autor da língua portuguesa. O livro é rápido, mas com bom ritmo, interessante, com as descrições emocionais e de conflitos internos que tanto gosto.

Ao relatar sua vida no início do século XX, o personagem principal (intelectual e escritor, quem diria!), mostra que a vida de artista não era tão diferente naquela época, da que imagino seja hoje. Em minha opinião, os escritores exploram as atividades do dia a dia, em busca de significados mais profundos, ou de emoções que possam compartilhar com seus leitores.

Esta tarefa amplia a sensibilidade, torna o mundo mais agudo, por vezes cheio de farpas. Não raro, vemos artistas em decisões pouco práticas, apoiados em vícios, ou simplesmente desorganizados. Faz parte da mística, tem gente que até gosta e prega que pode ser necessário um certo descolamento da “normalidade”. De toda a forma, isto pode ser bem sentido no relato deste livro.

Outra reflexão, mais especulativa, refere-se ao fato do autor ter se suicidado aos 26 anos. Era de familia abastada, com vida muito parecida com a retratada em seu livro. Suas certezas são inexoráveis, sem a relatividade de um pensamento pós-adolescente. O resultado? Desesperança de viver sem as dores que o afligiam, e a conseqüente desistência da vida.

É bom instinto de sobrevivência poder mudar de idéia, não levar suas convicções tão a sério, mas que literatura te interessa mais? Aquela apaixonada, dos que lutam para conformar o mundo a suas idéias e expectativas? Ou aquela decantada, daqueles que sentiram os sabores das paixões, consideram-nas belas, mas não são mais suas presas?

Difícil resposta.

sábado, 10 de dezembro de 2011

De "O Corcunda de Notre Dame"

O Arcediago, contando de como era feliz antes de conhecer a cigana Esmeralda: "...Não me interrompas. - Sim, era feliz, pensava sê-lo, pelo menos. Era puro, tinha a alma cheia duma claridade límpida. Não havia fronte que se erguesse mais altiva nem mais radiosa que a minha. Os padres consultavam-me sobre a castidade, os doutores sobre a doutrina. Sim, a ciência era tudo para mim; era uma irmã, e essa irmã bastava-me. Não quer dizer que com a idade não me viessem outras idéias. Por mais de uma vez a minha carne se emocionara com a passagem duma forma de mulher. A força do sexo e do sangue do homem, que, louco adolescente, julgara ter sufocado por toda a vida, tinham por mais de uma vez soerguido convulsivamente a cadeia de votos de ferro que me prendem, miserável, às frias pedras do altar. Mas o jejum, a oração, o estudo, as macerações do claustro, tinham conseguido tornar a alma senhora do corpo. Depois, fugia das mulheres. Bastava-me abrir um livro para que todos os impuros fumos do meu cérebro se dissipassem, perante o esplendor da ciência."

E depois de conhecê-la:..."Eu vou cair sobre estas pedras se não tens piedade de mim, piedade de ti. Não nos condenes a ambos. Se soubesses quanto eu te amo! Que coração palpita aqui no meu peito! Oh! Que deserção de toda a virtude! Que abandono desesperado de mim mesmo! Doutor, ultrajo a ciência; nobre, quebro o meu brasão; padre, faço do missal um travesseiro de luxúria, escarro no rosto do meu Deus! Tudo isto por tua causa, encantadora! Para ser mais digno do teu inferno!"

sexta-feira, 13 de maio de 2011

mais trechos de livros

Alguns trechos de leituras recentes. Não há necessária relação entre os textos. São aquelas frases que ao ler a gente sente vontade de dividir com alguém.


" A única solução biológica sensata para esse dilema é um despovoamento maciço, ou uma rápida emigração da espécie para outros planetas, associada dentro do possível com as outras quatro soluções antes apontadas: desarmamento, despatriotização, substitutos inofensivos de guerra, controle intelectual da agressão. Já sabemos que a agressividade incontrolável aumentará dramaticamente se a população humana continuar a aumentar segundo as aterradoras proporções atuais. Isso já foi aliás devidamente demonstrado em experiências de laboratório. A agolomeração excessiva produzirá uma tal agitação social, que acabará por despedaçar as noassas organizações comunitárias muito antes de morrermos de fome. A aglomeração excessiva agirá diretamente contra qualquer progresso do controle intelectual e aumentará de uma maneira bárbara as possibilidades de explosão emocional. A unica forma de prevenir esse risco será uma grande limitação dos nascimentos. Infelizmente, a medida implica dois obstáculos muito sérios. Como já disse, a unidade familiar - que continua a ser a unidade básica de nossas sociedades - é um dispositivo de procriação que evoluiu até atingir o atual sistema avançado e complexo de produzir, proteger e amadurecer descendentes. Se tal função fosse seriamente mutilada ou temporariamente eliminada, seria afetada a ligação aos pares, produzindo certo caos social. Por outro lado, qualquer tentativa de limitação seletiva dos nascimentos com certos casais reproduzindo-se livremente e outros impedidos de se reproduzir, iria perturbar a cooperação fundamental da sociedade. (O macacu Nú, 1969)

Ando lendo bastante...

Alguns trechos de leituras recentes. Não há necessária relação entre os textos. São aquelas frases que ao ler a gente sente vontade de dividir com alguém.

" Assim, se o tempo cotidiano do homem está hoje submetido ao tempo do objeto e da mercadoria, isto equivale a dier que o tempo do homem está submetido ao tempo do consumável. Ou seja, submisso ao tempo daquilo que vai finalizá-lo como um ente, cujo ser se caracteriza pelo cuidar de ser, e de ser si mesmo" (vida e morte- Ensaios fenomenológicos, 1988)

sexta-feira, 12 de março de 2010

A morte do Glauco

Fiquei triste com a notícia da morte do Cartunista Glauco, assassinado a tiros nesta madrugada, junto com seu filho.

Não sou assíduo leitor de suas tiras, mas acompanhei por tempos este tipo de humor, eventualmente no jornal, na internet, em publicações com Angeli e Laerte. Não vou tentar entender o espírito da época que formou esses artistas e o que os interessava, mas para mim sempre foram divertidos e autênticos.

Glauco tinha um humor jocoso, que afrontava, que a gente não levava para os pais para mostrar. Esta geração de cartunistas é inteligente, e guarda aquela liberdade dos compromissos com o estabelecido. Formaram um novo estabelecido.

Você olha para as fotos dele jovem, ao lado do Angeli e do Laerte e fica pensando que esse cara poderia muito bem ser do “fundão” da sua sala na escola. Aquele tipo de pessoa que a gente observa com atenção, procurando ter algumas de suas características.

Sei lá, pode ser viagem minha, mera projeção, mas posso imaginar como deveria ser divertido tomar cerveja com esses tipos, ser amigo, conhecer as manias, falar sério, falar besteira. Quando alguém assim morre, é como se o mundo perdesse um pouco da graça.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

E os primeiros dias de retorno...

Voltar para a rotina de trabalho e obrigações adultas é sempre um pouco traumático. Sentimos isto de leve a cada segunda feira (ok, nem tão de leve para alguns), mas muito mais fortemente após deliciosas férias.

O corpo insiste em querer dormir naquele horário obsceno... e acordar naquele horário escandaloso. A fome não “bate” no horário de almoço. O relógio passa devagar quando você quer que passe rápido, e voa quando você tem algo para entregar.

Nem todos os colegas estão de volta, e nem todos os recursos disponíveis. As vezes falta informação para planejar sequer o que você fará amanhã. Isto faz crescer em você uma sensação de estar num episódio de “Além da imaginação”.

Me lembro de um episódio em que uma família acorda com homens azuis desmontando suas casas. Em meio a protestos contra o “roubo”, percebem que todo o bairro esta sendo pilhado por homens azuis. De repente, o “chefe” desses seres aparece e pergunta “o que vocês fazem aqui?” – “essa é nossa casa!” respondem.

Aos poucos, entendem que ficaram no segundo que passou. Isso mesmo... cada segundo seria montado, e uma vez que ele passa, é desmontado por essas místicas figuras azuis - para compor os itens de segundos futuros. O chefe mostrava para o grupo que o trabalho era minucioso, e que eles trabalhavam com avanço (anos de antecedência). A logística era fantástica.

Você já teve a sensação de procurar algo em uma gaveta e não achar... e depois de procurar em vários lugares, voltar à gaveta e achar? Pois é, esses são os pequenos erros dos homens azuis - que eles corrigem em tempo. Na volta ao trabalho, desejo a você que possa corrigir em tempo aquilo que não estiver 100%, e esperar até que seus "neurônios azuis" estejam mais organizados.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os primeiros dias de férias

Após um ano tão cheio de correrias, é até difícil de acreditar que o dia vai correr de maneira preguiçosa. São as merecidas férias, que afastam computadores e idéias de pressa, e aproximam o protetor solar e a família, igualmente em ritmo lento e descompromissado.

O barulho da rede é ritmado, agudo, fruto de alguma peça de seu suporte que roça no metal a cada balanço. A brisa é tépida, um pouco mais quente que o desejado, mas transpirar um pouco não faz mal a ninguém.

Procura-se a companhia de bons amigos, regada a boa bebida. Tudo o que se quer é o jantar perfeito, da comida preferida. Adormecer no colo da mulher amada enquanto recebe afagos, enebriado pelo seu cheiro de perfume.

Dormir até acordar. Acordar sem compromisso. Ver o dia passar sem horário. Dia após dia. Como se as férias não tivessem fim.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Coração Abafado

Seu apartamento estava abafado naquela noite. Quando abriu a janela, uma brisa fresca e reconfortante secou o suor de seu pescoço. Não conseguia se concentrar.

De maneira automática, procurou pela geladeira. Assaltos que fizera durante o dia tinham acabado com tudo o que havia de interessante. Frustrado, voltou para a sala, que sob o efeito da janela escancarada já parecia menos insalubre.

Sentado novamente em frente ao computador, sua cabeça apresentou a programação do dia seguinte. Não seria nada demais. Queria ficar até tarde acordado, ter o que fazer, instigar sua mente. Mas a inspiração parecia tê-lo abandonado.

Os amigos estariam indisponíveis, e já era tarde. O que restava fazer? Estava enjoado da televisão. Intuitivamente sabia que nada ali prenderia sua atenção. Sentiu-se sozinho, dolorido – e ao mesmo tempo orgulhoso, desperto. Que tipo de novidade sua mente traria?

Acabou vencido pelo sono, mas não antes de despejar no teclado do computador textos escatológicos e confissões impróprias que seus personagens diziam em seu lugar, numa frágil escaramuça.