A Confissão de Lúcio
Sabe aqueles livros que a gente não lê, porque eram obrigação na escola? Pois é, eu também procurava um resumo (na época não tinha internet, mas apostilas de cursinho resolviam) e com isso me virava suficientemente bem nas provas.
Ao cadastrar o livro de Mario de Sá-Carneiro no skoob, achei que seria desonesto se não o lesse realmente. Acabei por fazê-lo (respeitei no cadastro o período em que tive o primeiro contato com a obra). Minha surpresa foi ter encontrado outro grande autor da língua portuguesa. O livro é rápido, mas com bom ritmo, interessante, com as descrições emocionais e de conflitos internos que tanto gosto.
Ao relatar sua vida no início do século XX, o personagem principal (intelectual e escritor, quem diria!), mostra que a vida de artista não era tão diferente naquela época, da que imagino seja hoje. Em minha opinião, os escritores exploram as atividades do dia a dia, em busca de significados mais profundos, ou de emoções que possam compartilhar com seus leitores.
Esta tarefa amplia a sensibilidade, torna o mundo mais agudo, por vezes cheio de farpas. Não raro, vemos artistas em decisões pouco práticas, apoiados em vícios, ou simplesmente desorganizados. Faz parte da mística, tem gente que até gosta e prega que pode ser necessário um certo descolamento da “normalidade”. De toda a forma, isto pode ser bem sentido no relato deste livro.
Outra reflexão, mais especulativa, refere-se ao fato do autor ter se suicidado aos 26 anos. Era de familia abastada, com vida muito parecida com a retratada em seu livro. Suas certezas são inexoráveis, sem a relatividade de um pensamento pós-adolescente. O resultado? Desesperança de viver sem as dores que o afligiam, e a conseqüente desistência da vida.
É bom instinto de sobrevivência poder mudar de idéia, não levar suas convicções tão a sério, mas que literatura te interessa mais? Aquela apaixonada, dos que lutam para conformar o mundo a suas idéias e expectativas? Ou aquela decantada, daqueles que sentiram os sabores das paixões, consideram-nas belas, mas não são mais suas presas?
Difícil resposta.
Opiniões pessoais e textos que retratam momentos. Para mais resenhas de livros, consulte meu perfil no Skoob
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
sábado, 10 de dezembro de 2011
De "O Corcunda de Notre Dame"
O Arcediago, contando de como era feliz antes de conhecer a cigana Esmeralda: "...Não me interrompas. - Sim, era feliz, pensava sê-lo, pelo menos. Era puro, tinha a alma cheia duma claridade límpida. Não havia fronte que se erguesse mais altiva nem mais radiosa que a minha. Os padres consultavam-me sobre a castidade, os doutores sobre a doutrina. Sim, a ciência era tudo para mim; era uma irmã, e essa irmã bastava-me. Não quer dizer que com a idade não me viessem outras idéias. Por mais de uma vez a minha carne se emocionara com a passagem duma forma de mulher. A força do sexo e do sangue do homem, que, louco adolescente, julgara ter sufocado por toda a vida, tinham por mais de uma vez soerguido convulsivamente a cadeia de votos de ferro que me prendem, miserável, às frias pedras do altar. Mas o jejum, a oração, o estudo, as macerações do claustro, tinham conseguido tornar a alma senhora do corpo. Depois, fugia das mulheres. Bastava-me abrir um livro para que todos os impuros fumos do meu cérebro se dissipassem, perante o esplendor da ciência."
E depois de conhecê-la:..."Eu vou cair sobre estas pedras se não tens piedade de mim, piedade de ti. Não nos condenes a ambos. Se soubesses quanto eu te amo! Que coração palpita aqui no meu peito! Oh! Que deserção de toda a virtude! Que abandono desesperado de mim mesmo! Doutor, ultrajo a ciência; nobre, quebro o meu brasão; padre, faço do missal um travesseiro de luxúria, escarro no rosto do meu Deus! Tudo isto por tua causa, encantadora! Para ser mais digno do teu inferno!"
E depois de conhecê-la:..."Eu vou cair sobre estas pedras se não tens piedade de mim, piedade de ti. Não nos condenes a ambos. Se soubesses quanto eu te amo! Que coração palpita aqui no meu peito! Oh! Que deserção de toda a virtude! Que abandono desesperado de mim mesmo! Doutor, ultrajo a ciência; nobre, quebro o meu brasão; padre, faço do missal um travesseiro de luxúria, escarro no rosto do meu Deus! Tudo isto por tua causa, encantadora! Para ser mais digno do teu inferno!"
sexta-feira, 13 de maio de 2011
mais trechos de livros
Alguns trechos de leituras recentes. Não há necessária relação entre os textos. São aquelas frases que ao ler a gente sente vontade de dividir com alguém.
" A única solução biológica sensata para esse dilema é um despovoamento maciço, ou uma rápida emigração da espécie para outros planetas, associada dentro do possível com as outras quatro soluções antes apontadas: desarmamento, despatriotização, substitutos inofensivos de guerra, controle intelectual da agressão. Já sabemos que a agressividade incontrolável aumentará dramaticamente se a população humana continuar a aumentar segundo as aterradoras proporções atuais. Isso já foi aliás devidamente demonstrado em experiências de laboratório. A agolomeração excessiva produzirá uma tal agitação social, que acabará por despedaçar as noassas organizações comunitárias muito antes de morrermos de fome. A aglomeração excessiva agirá diretamente contra qualquer progresso do controle intelectual e aumentará de uma maneira bárbara as possibilidades de explosão emocional. A unica forma de prevenir esse risco será uma grande limitação dos nascimentos. Infelizmente, a medida implica dois obstáculos muito sérios. Como já disse, a unidade familiar - que continua a ser a unidade básica de nossas sociedades - é um dispositivo de procriação que evoluiu até atingir o atual sistema avançado e complexo de produzir, proteger e amadurecer descendentes. Se tal função fosse seriamente mutilada ou temporariamente eliminada, seria afetada a ligação aos pares, produzindo certo caos social. Por outro lado, qualquer tentativa de limitação seletiva dos nascimentos com certos casais reproduzindo-se livremente e outros impedidos de se reproduzir, iria perturbar a cooperação fundamental da sociedade. (O macacu Nú, 1969)
" A única solução biológica sensata para esse dilema é um despovoamento maciço, ou uma rápida emigração da espécie para outros planetas, associada dentro do possível com as outras quatro soluções antes apontadas: desarmamento, despatriotização, substitutos inofensivos de guerra, controle intelectual da agressão. Já sabemos que a agressividade incontrolável aumentará dramaticamente se a população humana continuar a aumentar segundo as aterradoras proporções atuais. Isso já foi aliás devidamente demonstrado em experiências de laboratório. A agolomeração excessiva produzirá uma tal agitação social, que acabará por despedaçar as noassas organizações comunitárias muito antes de morrermos de fome. A aglomeração excessiva agirá diretamente contra qualquer progresso do controle intelectual e aumentará de uma maneira bárbara as possibilidades de explosão emocional. A unica forma de prevenir esse risco será uma grande limitação dos nascimentos. Infelizmente, a medida implica dois obstáculos muito sérios. Como já disse, a unidade familiar - que continua a ser a unidade básica de nossas sociedades - é um dispositivo de procriação que evoluiu até atingir o atual sistema avançado e complexo de produzir, proteger e amadurecer descendentes. Se tal função fosse seriamente mutilada ou temporariamente eliminada, seria afetada a ligação aos pares, produzindo certo caos social. Por outro lado, qualquer tentativa de limitação seletiva dos nascimentos com certos casais reproduzindo-se livremente e outros impedidos de se reproduzir, iria perturbar a cooperação fundamental da sociedade. (O macacu Nú, 1969)
Ando lendo bastante...
Alguns trechos de leituras recentes. Não há necessária relação entre os textos. São aquelas frases que ao ler a gente sente vontade de dividir com alguém.
" Assim, se o tempo cotidiano do homem está hoje submetido ao tempo do objeto e da mercadoria, isto equivale a dier que o tempo do homem está submetido ao tempo do consumável. Ou seja, submisso ao tempo daquilo que vai finalizá-lo como um ente, cujo ser se caracteriza pelo cuidar de ser, e de ser si mesmo" (vida e morte- Ensaios fenomenológicos, 1988)
" Assim, se o tempo cotidiano do homem está hoje submetido ao tempo do objeto e da mercadoria, isto equivale a dier que o tempo do homem está submetido ao tempo do consumável. Ou seja, submisso ao tempo daquilo que vai finalizá-lo como um ente, cujo ser se caracteriza pelo cuidar de ser, e de ser si mesmo" (vida e morte- Ensaios fenomenológicos, 1988)
sexta-feira, 12 de março de 2010
A morte do Glauco
Fiquei triste com a notícia da morte do Cartunista Glauco, assassinado a tiros nesta madrugada, junto com seu filho.
Não sou assíduo leitor de suas tiras, mas acompanhei por tempos este tipo de humor, eventualmente no jornal, na internet, em publicações com Angeli e Laerte. Não vou tentar entender o espírito da época que formou esses artistas e o que os interessava, mas para mim sempre foram divertidos e autênticos.
Glauco tinha um humor jocoso, que afrontava, que a gente não levava para os pais para mostrar. Esta geração de cartunistas é inteligente, e guarda aquela liberdade dos compromissos com o estabelecido. Formaram um novo estabelecido.
Você olha para as fotos dele jovem, ao lado do Angeli e do Laerte e fica pensando que esse cara poderia muito bem ser do “fundão” da sua sala na escola. Aquele tipo de pessoa que a gente observa com atenção, procurando ter algumas de suas características.
Sei lá, pode ser viagem minha, mera projeção, mas posso imaginar como deveria ser divertido tomar cerveja com esses tipos, ser amigo, conhecer as manias, falar sério, falar besteira. Quando alguém assim morre, é como se o mundo perdesse um pouco da graça.
Não sou assíduo leitor de suas tiras, mas acompanhei por tempos este tipo de humor, eventualmente no jornal, na internet, em publicações com Angeli e Laerte. Não vou tentar entender o espírito da época que formou esses artistas e o que os interessava, mas para mim sempre foram divertidos e autênticos.
Glauco tinha um humor jocoso, que afrontava, que a gente não levava para os pais para mostrar. Esta geração de cartunistas é inteligente, e guarda aquela liberdade dos compromissos com o estabelecido. Formaram um novo estabelecido.
Você olha para as fotos dele jovem, ao lado do Angeli e do Laerte e fica pensando que esse cara poderia muito bem ser do “fundão” da sua sala na escola. Aquele tipo de pessoa que a gente observa com atenção, procurando ter algumas de suas características.
Sei lá, pode ser viagem minha, mera projeção, mas posso imaginar como deveria ser divertido tomar cerveja com esses tipos, ser amigo, conhecer as manias, falar sério, falar besteira. Quando alguém assim morre, é como se o mundo perdesse um pouco da graça.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
E os primeiros dias de retorno...
Voltar para a rotina de trabalho e obrigações adultas é sempre um pouco traumático. Sentimos isto de leve a cada segunda feira (ok, nem tão de leve para alguns), mas muito mais fortemente após deliciosas férias.
O corpo insiste em querer dormir naquele horário obsceno... e acordar naquele horário escandaloso. A fome não “bate” no horário de almoço. O relógio passa devagar quando você quer que passe rápido, e voa quando você tem algo para entregar.
Nem todos os colegas estão de volta, e nem todos os recursos disponíveis. As vezes falta informação para planejar sequer o que você fará amanhã. Isto faz crescer em você uma sensação de estar num episódio de “Além da imaginação”.
Me lembro de um episódio em que uma família acorda com homens azuis desmontando suas casas. Em meio a protestos contra o “roubo”, percebem que todo o bairro esta sendo pilhado por homens azuis. De repente, o “chefe” desses seres aparece e pergunta “o que vocês fazem aqui?” – “essa é nossa casa!” respondem.
Aos poucos, entendem que ficaram no segundo que passou. Isso mesmo... cada segundo seria montado, e uma vez que ele passa, é desmontado por essas místicas figuras azuis - para compor os itens de segundos futuros. O chefe mostrava para o grupo que o trabalho era minucioso, e que eles trabalhavam com avanço (anos de antecedência). A logística era fantástica.
Você já teve a sensação de procurar algo em uma gaveta e não achar... e depois de procurar em vários lugares, voltar à gaveta e achar? Pois é, esses são os pequenos erros dos homens azuis - que eles corrigem em tempo. Na volta ao trabalho, desejo a você que possa corrigir em tempo aquilo que não estiver 100%, e esperar até que seus "neurônios azuis" estejam mais organizados.
O corpo insiste em querer dormir naquele horário obsceno... e acordar naquele horário escandaloso. A fome não “bate” no horário de almoço. O relógio passa devagar quando você quer que passe rápido, e voa quando você tem algo para entregar.
Nem todos os colegas estão de volta, e nem todos os recursos disponíveis. As vezes falta informação para planejar sequer o que você fará amanhã. Isto faz crescer em você uma sensação de estar num episódio de “Além da imaginação”.
Me lembro de um episódio em que uma família acorda com homens azuis desmontando suas casas. Em meio a protestos contra o “roubo”, percebem que todo o bairro esta sendo pilhado por homens azuis. De repente, o “chefe” desses seres aparece e pergunta “o que vocês fazem aqui?” – “essa é nossa casa!” respondem.
Aos poucos, entendem que ficaram no segundo que passou. Isso mesmo... cada segundo seria montado, e uma vez que ele passa, é desmontado por essas místicas figuras azuis - para compor os itens de segundos futuros. O chefe mostrava para o grupo que o trabalho era minucioso, e que eles trabalhavam com avanço (anos de antecedência). A logística era fantástica.
Você já teve a sensação de procurar algo em uma gaveta e não achar... e depois de procurar em vários lugares, voltar à gaveta e achar? Pois é, esses são os pequenos erros dos homens azuis - que eles corrigem em tempo. Na volta ao trabalho, desejo a você que possa corrigir em tempo aquilo que não estiver 100%, e esperar até que seus "neurônios azuis" estejam mais organizados.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Os primeiros dias de férias
Após um ano tão cheio de correrias, é até difícil de acreditar que o dia vai correr de maneira preguiçosa. São as merecidas férias, que afastam computadores e idéias de pressa, e aproximam o protetor solar e a família, igualmente em ritmo lento e descompromissado.
O barulho da rede é ritmado, agudo, fruto de alguma peça de seu suporte que roça no metal a cada balanço. A brisa é tépida, um pouco mais quente que o desejado, mas transpirar um pouco não faz mal a ninguém.
Procura-se a companhia de bons amigos, regada a boa bebida. Tudo o que se quer é o jantar perfeito, da comida preferida. Adormecer no colo da mulher amada enquanto recebe afagos, enebriado pelo seu cheiro de perfume.
Dormir até acordar. Acordar sem compromisso. Ver o dia passar sem horário. Dia após dia. Como se as férias não tivessem fim.
O barulho da rede é ritmado, agudo, fruto de alguma peça de seu suporte que roça no metal a cada balanço. A brisa é tépida, um pouco mais quente que o desejado, mas transpirar um pouco não faz mal a ninguém.
Procura-se a companhia de bons amigos, regada a boa bebida. Tudo o que se quer é o jantar perfeito, da comida preferida. Adormecer no colo da mulher amada enquanto recebe afagos, enebriado pelo seu cheiro de perfume.
Dormir até acordar. Acordar sem compromisso. Ver o dia passar sem horário. Dia após dia. Como se as férias não tivessem fim.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Coração Abafado
Seu apartamento estava abafado naquela noite. Quando abriu a janela, uma brisa fresca e reconfortante secou o suor de seu pescoço. Não conseguia se concentrar.
De maneira automática, procurou pela geladeira. Assaltos que fizera durante o dia tinham acabado com tudo o que havia de interessante. Frustrado, voltou para a sala, que sob o efeito da janela escancarada já parecia menos insalubre.
Sentado novamente em frente ao computador, sua cabeça apresentou a programação do dia seguinte. Não seria nada demais. Queria ficar até tarde acordado, ter o que fazer, instigar sua mente. Mas a inspiração parecia tê-lo abandonado.
Os amigos estariam indisponíveis, e já era tarde. O que restava fazer? Estava enjoado da televisão. Intuitivamente sabia que nada ali prenderia sua atenção. Sentiu-se sozinho, dolorido – e ao mesmo tempo orgulhoso, desperto. Que tipo de novidade sua mente traria?
Acabou vencido pelo sono, mas não antes de despejar no teclado do computador textos escatológicos e confissões impróprias que seus personagens diziam em seu lugar, numa frágil escaramuça.
De maneira automática, procurou pela geladeira. Assaltos que fizera durante o dia tinham acabado com tudo o que havia de interessante. Frustrado, voltou para a sala, que sob o efeito da janela escancarada já parecia menos insalubre.
Sentado novamente em frente ao computador, sua cabeça apresentou a programação do dia seguinte. Não seria nada demais. Queria ficar até tarde acordado, ter o que fazer, instigar sua mente. Mas a inspiração parecia tê-lo abandonado.
Os amigos estariam indisponíveis, e já era tarde. O que restava fazer? Estava enjoado da televisão. Intuitivamente sabia que nada ali prenderia sua atenção. Sentiu-se sozinho, dolorido – e ao mesmo tempo orgulhoso, desperto. Que tipo de novidade sua mente traria?
Acabou vencido pelo sono, mas não antes de despejar no teclado do computador textos escatológicos e confissões impróprias que seus personagens diziam em seu lugar, numa frágil escaramuça.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
On the Road
Trecho do livro "On the Road" de Jack Kerouak
Sal Paradise e Dean Moriarty estão de carona, no banco de trás, indo de S. Francisco para Denver, quando Dean comenta com Sal:
"Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir nessa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explicita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim."
Sal Paradise e Dean Moriarty estão de carona, no banco de trás, indo de S. Francisco para Denver, quando Dean comenta com Sal:
"Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir nessa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explicita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim."
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Medita-ação
Hoje o dia passou tão rápido que nem vi. Me absorvi em algumas tarefas, algumas domésticas outras profissionais, e quando vi eram 17:00h e não nem tinha almoçado.
Existe um prazer especial em ver várias tarefas pendentes resolvidas, apesar da dor nas costas e de algumas coisas que tiveram que ser adiadas. Esse deve ser o verdadeiro significado de meditação. Concentrar-se numa tarefa a tal ponto que nada mais ocupa espaço ou energia de sua mente. Fiquei ali em cada tarefa, como se não houvesse nada depois, como se nada mais fosse importante no mundo.
Por um momento, existi para essas tarefas, e essa entrega fez com que tivessem um significado especial. Divido isto com vocês.
Existe um prazer especial em ver várias tarefas pendentes resolvidas, apesar da dor nas costas e de algumas coisas que tiveram que ser adiadas. Esse deve ser o verdadeiro significado de meditação. Concentrar-se numa tarefa a tal ponto que nada mais ocupa espaço ou energia de sua mente. Fiquei ali em cada tarefa, como se não houvesse nada depois, como se nada mais fosse importante no mundo.
Por um momento, existi para essas tarefas, e essa entrega fez com que tivessem um significado especial. Divido isto com vocês.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Contraponto
Acabo de postar no blog “apenas dois pontos” sobre a má formação de jovens, e critiquei sua falta de compromisso com a faculdade, ficando nos bares dos arredores no período de aulas.
Como contraponto:
Já era meia noite, e em breve os ônibus seriam recolhidos. Ainda assim, uma estranha sensação de paz e adequação me contaminava. A meu redor, alguns amigos e outros nem tanto, mas que naquele momento sob influência etílica eu confiava, me garantiam o transporte para casa, pedindo que eu ficasse.
Tratava-se de um pacto para que não deixássemos a noite acabar. A conversa tão boa, tão sincera! Opiniões fortes e categóricas recebidas com riso e aprovação. Em curtos momentos, meus olhos turvos da fumaça de cigarros fitavam a multidão espalhada nas calçadas, em algazarra.
Uns poucos neurônios sóbrios se lembravam dos compromissos do dia seguinte, mas uma aparentemente interminável ponte de sono e inconsciência separaria os momentos de descontração naquele local do dia de atividades que me esperava amanhã. Era como se aquele mundo fosse acabar no momento em que eu fechasse os olhos, e outra realidade fosse me receber no dia seguinte.
Talvez por isso todos lutavam para manter os colegas ali, juntos, desafiando o relógio copo após copo – apegados àquele mundo irreal e esfumaçado que inevitavelmente fugia de nossas mãos.
Chega um momento, porém, em que mesmo bêbados nos damos conta da ilusão que estamos vivendo. Então, acordados da catarse, um desânimo grande e os primeiros indícios da intoxicação alcólica nos pedem para desistir de mais este sonho, de mais esta paixão. A conversa fica repetitiva, os pés doem, você começa a pensar na conta a pagar. O mundo que parecia compartilhado passa a ser solitário e você questiona se realmente havia parceria.
É hora de deixar-se ir embora, talvez reencontrar este momento na brisa de outra noite de verão, no convite doce dos amigos para mais algumas horas de ilusão.
Como contraponto:
Já era meia noite, e em breve os ônibus seriam recolhidos. Ainda assim, uma estranha sensação de paz e adequação me contaminava. A meu redor, alguns amigos e outros nem tanto, mas que naquele momento sob influência etílica eu confiava, me garantiam o transporte para casa, pedindo que eu ficasse.
Tratava-se de um pacto para que não deixássemos a noite acabar. A conversa tão boa, tão sincera! Opiniões fortes e categóricas recebidas com riso e aprovação. Em curtos momentos, meus olhos turvos da fumaça de cigarros fitavam a multidão espalhada nas calçadas, em algazarra.
Uns poucos neurônios sóbrios se lembravam dos compromissos do dia seguinte, mas uma aparentemente interminável ponte de sono e inconsciência separaria os momentos de descontração naquele local do dia de atividades que me esperava amanhã. Era como se aquele mundo fosse acabar no momento em que eu fechasse os olhos, e outra realidade fosse me receber no dia seguinte.
Talvez por isso todos lutavam para manter os colegas ali, juntos, desafiando o relógio copo após copo – apegados àquele mundo irreal e esfumaçado que inevitavelmente fugia de nossas mãos.
Chega um momento, porém, em que mesmo bêbados nos damos conta da ilusão que estamos vivendo. Então, acordados da catarse, um desânimo grande e os primeiros indícios da intoxicação alcólica nos pedem para desistir de mais este sonho, de mais esta paixão. A conversa fica repetitiva, os pés doem, você começa a pensar na conta a pagar. O mundo que parecia compartilhado passa a ser solitário e você questiona se realmente havia parceria.
É hora de deixar-se ir embora, talvez reencontrar este momento na brisa de outra noite de verão, no convite doce dos amigos para mais algumas horas de ilusão.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Dias quentes
Dias quentes como hoje produzem um estranho efeito em mim. As vezes a mente para, e por um minuto o ar parece pesado, modorrento.
Diferente de nossos momentos de preguiça, parece que o planeta está mais lento. O motor que faz a terra girar parou por um instante, e ficamos no embalo. Apenas alguns segundos. Nada demorado que fizesse o dia ter mais minutos, ou que atrapalhasse nosso clima. Ele religa, e o dia continua.
Como os dias que continuam, resolvi continuar meu blog pessoal. Estou mudando de endereço, pois aqui é mais bonito e democrático. Quem tiver interesse em ver o histórico, basta clicar AQUI.
Um abraço aos leitores, e não deixe de visitar o blog "Apenas Dois Pontos" .
Diferente de nossos momentos de preguiça, parece que o planeta está mais lento. O motor que faz a terra girar parou por um instante, e ficamos no embalo. Apenas alguns segundos. Nada demorado que fizesse o dia ter mais minutos, ou que atrapalhasse nosso clima. Ele religa, e o dia continua.
Como os dias que continuam, resolvi continuar meu blog pessoal. Estou mudando de endereço, pois aqui é mais bonito e democrático. Quem tiver interesse em ver o histórico, basta clicar AQUI.
Um abraço aos leitores, e não deixe de visitar o blog "Apenas Dois Pontos" .
Assinar:
Postagens (Atom)